Sonae. Há "alguns ecos" inflacionistas derivados da guerra do Médio Oriente

Evitando disparar os alarmes, Cláudia Azevedo lembrou que o retalho alimentar é muito afetado pelo preço do petróleo. Há que esperar para ver a duração do conflito, mas há sinais preocupantes.
Cláudia Azevedo diz ter "um orgulho enorme em liderar" a Sonae.
Cláudia Azevedo diz ter "um orgulho enorme em liderar" a Sonae.Pedro Fonseca/Global Imagens
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O impacto da guerra no Médio Oriente no preço dos alimentos é ainda uma incógnita. O setor “é muito afetado pelo preço do petróleo”, mas a situação geopolítica "é, de longe, a maior incógnita que temos”, disse sexta-feira, 19 de março, Cláudia Azevedo, CEO da Sonae, em conferência de imprensa, no Porto, realizada após a divulgado ao mercado dos resultados do grupo em 2025. Com cautela, afirmou ser “muito diferente se a guerra durar mais uma semana ou durar mais um mês, dois meses ou dois anos". Já o CFO do grupo, João Dolores, admitiu existirem já “alguns ecos" de pressão inflacionista.

Como afirmou, os consumidores "ainda não estão a sentir, na globalidade dos produtos, uma aceleração da inflação”, mas é “natural que, se esta situação persistir no tempo, essa pressão inflacionista comece a surgir também na cadeia de abastecimento e nos fornecedores do grupo”. Para já, a inflação nos alimentos está "controlada", frisou. No início do ano, estava nos 3%, abaixo dos 4% registados em 2025. O que poderá suceder, como já verificado na última crise inflacionista, é "alguma mudança de padrão de consumo", com "aumento da marca própria".

Esse desvio dos consumidores para produtos da marca própria Continente (insígnia de retalho alimentar do grupo Sonae) já se verifica desde o início de 2022, quando deflagrou a guerra na Ucrânia. Nessa altura, a marca própria pesava "vinte e muito por cento e hoje pesa um terço" nas vendas do Continente, disse João Dolores, quando questionado pelo DN/DV. Apesar de não ser possível avaliar em concreto o aumento das vendas da marca própria neste período (os números divulgados não são rigorosos), a evolução permite observar uma tendência dos consumidores por estes produtos mais económicos. Ou seja, os portugueses já estavam a fazer contas à vida antes de surgir mais este conflito armado.

A guerra no Médio Oriente poderá elevar ainda mais os preços dos alimentos. Face a uma situação de subida generalizada, "todos os players da cadeia de valor têm de fazer o seu papel e o Estado também", defendeu Cláudia Azevedo. Recorde-se que na última crise inflacionista, o governo de António Costa implementou o IVA zero a um cabaz de 46 produtos essenciais, medida que vigorou entre 18 de abril de 2023 e 4 de janeiro de 2024. “Gostamos muito do IVA zero”, frisou a CEO da Sonae, na conferência.

O Continente, que surgiu há 40 anos, registou um volume de vendas de 7,1 mil milhões de euros no ano passado, um crescimento de 10% face a 2024. Na comparação like-for-like (ou seja, comparando o mesmo número de lojas nos dois exercícios), o crescimento foi de 8,3%. Esta performance do segmento alimentar foi "principalmente" impulsionada por volumes, num contexto em que (recorde-se) a inflação no retalho alimentar se situou nos 4%. Soma-se ainda a expansão da rede, com a abertura de 13 supermercados, seguindo uma estratégia de proximidade ao cliente.

Em termos consolidados, o volume de negócios do grupo Sonae atingiu os 11,4 mil milhões de euros no ano passado, uma subida de 14% face a 2024. Já o EBITDA cresceu 18%, para 1,2 mil milhões de euros. O resultado desta operação foi um lucro líquido de 247 milhões de euros, um aumento de 11%. Cláudia Azevedo considerou que foi um ano "extraordinário" para o grupo. Um exercício "de crescimento a ritmo acelerado", que materializou uma "quota de mercado consolidada". Não deixou também de realçar o investimento de 1,1 mil milhões de euros realizado ao longo de 2025, 900 milhões dos quais aplicados em Portugal. Segundo adiantou, o grupo investiu seis mil milhões de euros nos últimos cinco anos.

A Sonae está também a investir de novo em habitação. Desta vez, está focada em empreendimentos built-to-rent (construir para arrendar). O grupo tem em carteira três projetos, num investimento de 100 milhões de euros, em diferentes fases de desenvolvimento. João Dolores revelou que são investimentos em Portugal e Espanha, mercados onde o imobiliário continua a dar sinais de vitalidade. Sem adiantar muitos pormenores, disse que um dos projetos está em construção e localiza-se no Porto.

Logo no início da conferência, Cláudia Azevedo lembrou que se celebrava o Dia do Pai e sublinhou sentir "um orgulho enorme em liderar esta companhia", numa referência ao legado do pai, Belmiro de Azevedo. Acrescentou também que é "muito feliz como CEO da Sonae", afastando assim uma saída no fim do ano, quando termina o mandato da atual administração.

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