

Os maiores bancos com operação em Portugal registaram aumentos no crédito a clientes, no primeiro trimestre. Ao mesmo tempo que as expetativas apontam para duas subidas dos juros até final do ano, as preocupações ligadas à inflação dominam o sentimento de risco.
Em causa estão os resultados apresentados nos últimos dias pelo BCP, Novo Banco, BPI e Santander, que fazem parte dos cinco bancos com maior peso na economia portuguesa. A este grupo, soma-se a Caixa Geral de Depósitos (CGD), que publica contas nesta sexta-feira, dia 8 de maio.
O resultado líquido (vulgarmente chamado lucro) forma a métrica mais vezes analisada por quem olha para o setor bancário. Ora, a este respeito, não há um caminho claro, entre os quatro gigantes.
O Millenium BCP foi o último a mostrar contas e registou o maior aumento relativo face ao primeiro trimestre do ano passado, na ordem de 21,2%, indicam os dados do negócio que tem em Portugal, ao alcançar 265,4 milhões de euros. Ao nível do grupo, os números contemplam o lucro mais elevado da história do BCP, na ordem de 306 milhões de euros, em função de um disparo de 65% nas operações internacionais.
Também em alta ficou o Novo Banco, que fez saber ainda que passa a estar integrado no grupo francês BPCE. O lucro cresceu 13,2%, para 200,7 milhões de euros, entre janeiro e março. Por outro lado, o Santander viu o resultado líquido cair 10% em Portugal, na medida em que se ficou pelos 242,4 milhões, apesar de atingir um recorde no total global. Simultaneamente, o BPI registou um recuo de 8%, até aos 90 milhões de euros.
Posto isto, os principais players do setor não acompanharam a tendência amplamente positiva que se denota entre a generalidade dos grandes bancos mundiais. É que grandes nomes como BBVA, Deutsche Bank, Goldman Sachs e JPMorgan Chase viram os lucros a crescer dois dígitos, no período em análise.
Uma tendência que, essa sim, fica evidente, passa pelo aumento do crédito em carteira, acima até daquele que se regista nas operações globais dos mesmos grupos. Ao mesmo tempo, o risco está em baixa, mas as perspetivas de inflação e subida das taxas de juro condicionam. De resto, especialistas à escala internacional têm vindo a alertar para a possibilidade de a estabilidade financeira ficar comprometida.
Para tal, beneficiam, em grande medida, da garantia pública dedicada ao crédito à habitação para jovens dos 18 aos 35 anos, assim como da isenção de IMT e Imposto de Selo, na hora da compra.
No caso do BPI, regista-se um acréscimo de 8% em termos homólogos, para 33,8 mil milhões de euros. Ora, se adicionarmos o facto de, em simultâneo, a quota de mercado ter permanecido nos 12% em fevereiro, torna-se evidente o crescimento do setor financeiro, no que diz respeito a emprestar dinheiro.
De resto, o mesmo BPI assinala que em causa estão vários fatores, como são o mercado de trabalho forte, que coincide com o crescimento dos salários brutos (próximo de 6% em 2025) e o baixo desemprego.
O Santander viu igualmente uma subida de 8% na carteira de crédito (acima dos números globais do grupo, que não foram além de 3%), já que esta marcou 43 mil milhões de euros. O grupo espanhol, que tem grande presença no mercado português, parece ter uma postura mais cautelosa, sendo que aponta para o foco em "crescimento lucrativo e gestão de capital ativa e disciplinada", o que constitui uma forma de sinalizar melhor seletividade de risco.
Olhando ao BCP, os números apontam para um aumento homólogo de 9,6% no crédito a clientes, até aos 43,9 mil milhões de euros em Portugal (também a crescer acima do total do banco). Os recursos totais de clientes subiram 6,3%. Ao mesmo tempo, o risco manteve-se nos 33 pontos base (p.b.). Destaque, neste parâmetro, para a escalada de 11,1% no crédito à habitação, que atingiu 22,3 mil milhões de euros.
Já o Novo Banco, viu o crédito aumentar 3,5% e atingir 31,1 mil milhões de euros, enquanto o custo de risco recuou 3 p.b. e ficou-se pelos 14 pontos. Posto isto, a própria empresa assinala a capacidade nos empréstimos a empresas e o "baixo risco" na exposição ao crédito à habitação.
Mas, se o setor parece tão robusto, de onde surgem, então, os riscos? Há mais do que uma variante. O crédito é crucial para acelerar as economias e o crescimento é sinal de ganho de confiança por parte das famílias e empresas, na medida em que se comprometem a pagar uma dívida, ainda para mais num contexto de taxas de juro elevadas (em 2,0%, no caso do BCE).
Por outro lado, estes aumentos significam que empresas e privados estão a acumular dívidas, num fenómeno que pode colocar uma incógnita sobre o sistema financeiro global. Executivos de gigantes da banca norte-americana têm alertado para esta situação. É o caso de Jamie Dimon, diretor executivo do JPMorgan, que disse que "nem todos os que emprestam são necessariamente bons nisso", pode ler-se num documento divulgado recentemente por aquele banco. De resto, estão em causa riscos que têm deixado os banqueiros de cabelos em pé.
Em simultâneo, acumulam-se receios ligados à subida dos preços da energia, fruto da guerra no Médio Oriente. Em causa está a supressão de oferta de petróleo, que resulta do impacto no estreito de Ormuz e pôs o preço do petróleo em máximos de 2022. Toda esta situação ameaça afetar de forma severa a banca global.
Prova disto é que, no mesmo documento, o Santander, por exemplo, assinala a maior incerteza geopolítica, a desaceleração económica e a subida dos preços da energia. Em consequência disto, assinala o Novo Banco, o mercado antecipa "taxas de juro mais elevadas", numa altura em que se estimam pelo menos duas subidas (de 25 pontos base cada) no caso do BCE. Uma situação à qual todo o setor estará certamente muito atento.