Todos os anos, o entusiasmo é o mesmo nos primeiros dias da Watches and Wonders, a maior feira de alta relojoaria do mundo – nos últimos, o cansaço tolda algum do ânimo – onde as grandes casas apresentam as suas novidades e tentam surpreender um público cada vez mais exigente.
Desdobram-se em histórias, testam limites e para além das cores e dos materiais – o titânico e o tungsténio têm estado em destaque, por estes dias – apresentam também parcerias inéditas e prometem mais investigação e desenvolvimento. Querem mostrar “um tempo amigo, ao invés de um tempo que controla”, resumia uma das responsáveis da Hermés na apresentação das novidades deste ano, enquanto ele continua a passar, constante e intrépido.
Se há marcas que decidiram resgatar as inspirações de décadas passadas – como fizeram a Tudor, a Tag Heuer ou a Panerai - outras há que estão absolutamente focadas no futuro. Até porque não têm passado para se inspirar. É o caso da Bremont, uma marca inglesa, criada em 2002. Apesar de ter como sócio maioritário o americano Bill Ackman, desde 2023, a Bremont continua sedeada em Henley oh Thames, onde desenvolve e produz todos os relógios que coloca no mercado.
Destaca-se pela informalidade num setor que gosta particularmente de alguma presunção e também pelo facto de não fazer parte da ‘nata’ da relojoaria, instalada no sopé das montanhas suíças. E este ano chegou a Genebra com uma novidade que acabaria por fascinar grande parte dos presentes: o seu Bremont Supernova Chronograph vai ser enviado para a Lua, a bordo do rover FLIP (FLEX Lunar Innovation Platform), que faz parte da Missão Griffin One da Astrobotic. Com o objetivo de recolher dados sobre a mitigação do pó lunar e as operações na superfície, a informação recolhida pelo rover FLIP servirá de base para o design e a funcionalidade de futuras plataformas lunares. O Supernova da Bremont será integrado no chassis do rover FLIP através de uma placa de azulejos concebida à medida.
Com um design inspirado na forma dos painéis solares, uma caixa de 41mm e com todos os testes de pressão, temperatura e afins que lhe permitem embarcar no FLIP, o novo relógio da Bremont é também uma forma de o CEO da empresa, Davide Cerrato, mostrar ao que veio: a marca, que nasceu da cabeça de dois irmãos ingleses Nick and Giles English, depois de terem sobrevivido a um acidente de aviação, sempre se concentrou em fazer relógios que cruzassem essa atividade (ambos são pilotos apaixonados) e o melhor da engenharia britânica. Agora, sem nenhum dos fundadores ligados à Bremont – cujo nome homenageia o proprietário da quinta onde tiveram de aterrar de emergência no referido acidente – a empresa parece estar vez mais concentrada em subir ainda mais nos céus e acomodar-se no espaço. O que lhe permite, também, chegar a um público mais abrangente.
Mantém a filosofia de Terra, Água e Ar, que estabeleceu desde o início como linha condutora das suas criações, mas tem apresentado mais coerência e ambição – a que não será alheio o investimento americano. Davide Cerrato fez questão de desvendar, perante um público de retalhistas e jornalistas, uma réplica do rover FLIP que a Bremont trouxe até Genebra, numa espécie de afirmação dos seus intentos. O CEO recordou o lema da marca – Levar mais longe – e mostrou-se animado com a perspetiva de a Bremont ser “a primeira marca de relógios britânica a chegar à lua”.
*O DN viajou para a Watches and Wonders a convite da organização.