Os apoios às empresas chegam do Estado e de Bruxelas. São decisivos à economia portuguesa, mas as burocracias e os tempos de espera ainda condenam projetos ao fracasso.
Os atrasos na chegada dos fundos (comunitários ou não) às empresas fazem com que determinados projetos arrisquem falhar o timming de entrada no mercado. Quem o diz é Bernardo Maciel, CEO da Yunit Consulting, em entrevista ao DN e DV. O próprio aponta aquele fator como o principal para a empresa ter ficado "aquém" das expetativas de receita para o ano passado. Em 2026, quer adquirir duas empresas, um objetivo que já vem do ano passado. Até 2028, espera cinco milhões de euros em faturação.
A consultora trabalha com cerca de 600 clientes, entre os quais estão, por exemplo, gigantes da banca, como são o Santander, Millenium BCP e Bankinter. Dispõe de dois escritórios (em Lisboa e no Porto), para um total de "quase" 50 trabalhadores. O foco está no apoio ao investimento, pelo que trabalha com incentivos fiscais como o SIFIDE e o RFAI, assim como procura orientar as empresas para práticas ligadas às leis mais recentes e aquela que ainda chegarão de Bruxelas, como é o caso dos critérios de sustentabilidade.
Em simultâneo, a Yunit está atenta às "alterações na geopolítica, nas cadeias de valor e a regionalização na Europa", o que obriga, historicamente, a olhar para setores da economia tão distintos como Segurança e Metalomecânica, ao mesmo tempo que a Defesa está em franco crescimento, ainda que "sem fechar os olhos" às Tecnologias de Informação (TI). Bernardo Maciel ambiciona ainda chegar a empresas com maior volume de negócios.
Em 2025, as vendas ficaram-se pelos 2,9 milhões de euros, abaixo dos três milhões que ambicionava. O próprio explica que o atraso no calendário dos fundos europeus, tanto nas candidaturas como nos tempos de decisão, foi o "fator principal". Mas de onde surge o valor final?
Do acompanhamento à Inteligência Artificial
A Yunit Consulting encarrega-se de "preparar a noiva para o casamento", explica. Isto significa acompanhar os projetos para candidatura a apoios, em todo o respetivo desenvolvimento. Fatura por esta preparação, a que acrescem eventuais prémios de sucesso e renovação.
Para 2026, os responsáveis esperam adquirir duas empresas, de forma a expandir as operações. É que, para o triénio que agora começa, a perspetiva passa por faturar cinco milhões de euros até 2028. Com o propósito de chegar a estes números, a empresa está a implementar uma ferramenta ligada à IA que se vai destinar a agilizar processos e a libertar as equipas para "aquilo que realmente acrescenta valor".
Este investimento deverá aproximar-se dos 200 mil euros, através de capitais próprios. A este valor poderão somar-se 150 mil euros, provenientes de instrumento de apoio à digitalização da economia. "Para a nossa dimensão, é um investimento relevante", sendo que falta ainda contratar "um perfil senior", que ficará responsável por esta pasta.
Ao trabalhar na área, os responsáveis acabam por chegar à conclusão que os atrasos na chegada dos fundos comunitários castigam os potenciais candidatos. As empresas procuram dar resposta a uma determinada necessidade de mercado, seja através de um produto ou de um serviço (ou ambos). Porém, a economia "não se coaduna com estas demoras, pela lógica dos concursos", sublinha Bernardo Maciel.
Nos casos em que falta liquidez para avançar a tempo, surgem duas hipóteses. Uma passa por aguardar o apoio, de forma que "pode perder-se o time to market", ou seja o momento certo para o lançamento no mercado. A outra consiste em avançar com as condições possíveis, o que pode resultar em falta de financiamento para determinados projetos. "Aqui temos muito a melhorar", sublinha.
Em simultâneo, o empresário apela a um calendário de investimentos com algum adiantamento, para permitir previsibilidade e maior fluidez de processos, do ponto de vista das empresas.
O facto de tal não existir, "cria esquizofrenia nos apoios" e o resultado é que determinadas empresas não chegam onde "as características e a visão estratégica lhes poderiam permitir".
O próprio denota ainda, no que respeita aos últimos anos, "instabilidade para os organismos que têm um conjunto de instrumentos que apoiam a economia [portuguesa]." Na origem, estão as repetidas mudanças de governo recentes, fruto das três eleições legislativas realizadas desde 2022.