

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas que o Dinheiro Vivo/DN teve com enólogos e produtores, em plena época de vindimas, sobre o estado da arte do setor e os desafios dos próximos anos.
A seca prolongada, na sequência das alterações climáticas, está a tornar-se estrutural no setor. Que evidências têm de que o modelo produtivo atual continua a ser compatível com o novo regime climático?
No ano vitícola 2025/2026 não podemos falar de seca prolongada. O Inverno foi rigoroso, com valores de precipitação superiores à média; as reservas hídricas do solo foram repostas, ficando na sua capacidade máxima. A planta iniciou o ciclo vegetativo com as condições ideais de desenvolvimento. É evidente que as temperaturas médias mensais têm vindo a aumentar, o que na prática se traduz numa antecipação dos estados fenológicos, e na data de colheita. Este ano iniciámos a vindima no dia 29 de julho no Tejo e no Alentejo. Há também uma tendência de perfil de consumo, para vinhos mais frescos, com menor teor alcoólico e também por esse motivo há uma tendência generalizada para antecipação da vindima.
Que quebra de produção antecipam - se é que antecipam - este ano e até que ponto essa redução ameaça a viabilidade económica das explorações mais pequenas?
No Tejo, já vindimámos 70% das castas brancas, e para já temos cerca de 45% de aumento de produção face à colheita anterior (2025). Em relação à média dos últimos cinco anos, estamos 15% acima.
Com custos de água, energia e mão de obra em máximos históricos, que margens operacionais esperam manter? Há risco real de encerramentos ou consolidação forçada no setor?
As margens são cada vez mais reduzidas e saliento os custos de mão de obra, que aumentaram de forma insustentável. Para além da pouca disponibilidade de mão de obra especializada. Apesar da mecanização de viticultura já ser uma realidade na maior parte da área de vinha de Portugal, continuam a existir operações especializadas e, em determinadas condições, é impossível mecanizar. Continuar a produzir uvas, como commodity, sem foco no destino, não é sustentável para o produtor. Torna-se difícil sobreviver neste setor se não houver criação de uma produto de valor acrescentado. Acredito que muitas empresas vão encerrar, muitos produtores de uvas vão procurar outras culturas alternativas que sejam menos dependentes de mão de obra, mais rentáveis e com escoamento assegurado. Ficarão as empresas que tiverem a capacidade de se reajustar através de uma gestão eficiente e que estejam determinadas em produzir vinhos reconhecidos pela sua diferenciação.
Como é que a redução de volume e a alteração do perfil dos vinhos afetam a capacidade de competir em mercados externos onde o preço e a consistência são decisivos?
É essencial conhecermos em detalhe o perfil do consumidor. Não podemos continuar a produzir vinhos da mesma forma que sempre fizemos. Temos de fazer vinhos ajustados às novas tendências de consumo, sem perder a nossa identidade. Num portefólio de uma empresa terá de haver espaço para vinhos de perfil mais moderno, capaz de cativar novos consumidores e, naturalmente, para os vinhos mais clássicos. Mas não podemos cair no erro de fazer todo o tipo de vinhos, para todos os consumidores; é ambicioso, mas impossível de conseguir para a grande parte das empresas de vinhos em Portugal, de pequena e média dimensão.
Como se combate esta nova vaga de campanha contra o consumo de vinho, em todo o mundo, mas de forma particular em Portugal onde há cada vez mais vozes a alertar para os efeitos nocivos do seu consumo?
Não é uma pergunta fácil e não me sinto confortável em responder. Talvez melhorar as campanhas de marketing focadas no consumo moderado, associado à qualidade e ao lifestyle. A cultura do vinho tem de chegar aos mais jovens com esta mensagem. Não creio que esteja a chegar.
Que investimentos estão a ser feitos e decisões concretas estão a ser tomadas para adaptar a vinha ao novo clima e à nova realidade de consumo?
Estamos a antecipar datas de colheita, a fazer vinhos de teor alcoólico mais moderado; estamos a usar técnicas de vinificação com extrações mais suaves, procurando produtos mais apelativos, com mais fruta, mais equilibrados na prova e que se traduzam num consumo mais frequente e descomplicado.
Se as condições climáticas e as reduções sucessivas de consumo dos últimos anos se mantiverem, qual é o cenário mais realista para o setor vitivinícola português nos próximos cinco anos?
É essencial que as empresas tenham uma gestão profissional, onde se saiba exatamente as margens de cada produto, e se tomem rapidamente decisões estratégicas. É urgente que as empresas se reajustem e procurem outras atividades complementares como o enoturismo, entre outras.
Quais considera serem os principais desafios desta vindima e do próximo ano, para o setor, em Portugal?
O grande desafio, é ajustar a oferta à procura. Na cultura da vinha, não é possível fazer de um ano para o outro. Há um desafio imediato, que é valorizar justamente as uvas produzidas em Portugal. Só é possível, iniciar este caminho, com estratégica eficiente de controlo da entrada de uva e vinho, nas fronteiras.