"Acabou-se o senhor simpático". Petróleo aproxima-se de máximos da guerra com nova escalada de tensões

O barril volta a tocar os 119 dólares, em função de sinais de que os EUA estão a preparar-se para um bloqueio duradouro aos portos do Irão. A inexistência de um acordo de paz agita investidores.
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Os sinais de uma nova escalada de tensões fizeram disparar o preço do petróleo. Os EUA planeiam prolongar o bloqueio aos portos do Irão, ao passo que o regime dos Ayatollahs não cede nas exigências, pelo que volta a escalar a tensão ligada à redução da oferta no mercado petrolífero.

A origem de todo o processo mantém-se no mesmo local desde o início da guerra: o estreito de Ormuz. Por ali passa, em condições normais, 20% do mercado global. Porém, neste momento, os petroleiros deparam-se não apenas com uma barreira, mas sim com um par delas. A primeira foi erguida pelo Irão, logo na sequência dos primeiros ataques dos EUA (28 de fevereiro). Seguiu-se, um mês e meio mais tarde, o bloqueio dos EUA aos portos iranianos.

Se a Guarda Revolucionária do Irão quer limitar o acesso de quaisquer petroleiros que não sejam do próprio regime ou de um aliado, cobrando uma taxa aos restantes, os EUA procuram limitar a entrada e saída de quaisquer um dos que estão abrangidos pelas exceções do Irão, ou que tenham pago qualquer valor para completar a travessia.

Ao pressionarem o Irão através da maior fonte de financiamento da economia daquele país, os EUA procuram obter 'luz verde' sobre determinadas condições para um cessar-fogo, entre as quais o fim do programa de desenvolvimento de armas nucleares (objetivo assumido por Donald Trump desde o início da guerra). Até ao momento, não parece haver luz ao fundo do túnel.

"No more Mr. Nice Guy", pode ler-se numa publicação do presidente dos EUA na rede social Truth Social, feita na manhã desta quarta-feira. A tradução para português fica algo como "acabou-se o senhor simpático" e surge na sequência de o próprio recusar uma proposta do Irão tendo em vista a reabertura do estreito de Ormuz, já que esta não mencionava o fim do objetivo de conceber armamento nuclear.

O problema, na perspetiva dos investidores, é que a guerra se arrasta, a redução da oferta agrava-se e, em conclusão, a ideia de um acordo de paz estável fica mais longínquo, pelo que se acumulam as tensões. Há efeitos diretos no sentimento dos mercados de capitais, a começar pela redução do apetite pelo risco, em função do aumento agressivo da incerteza.

Este último não decorre apenas da geopolítica, mas também da vertente económica, na medida em que um cenário de elevada inflação condiciona o poder de compra real das famílias e empresas. É que o aumento dos preços do petróleo afeta diretamente um vasto leque de empresas, desde a indústria ao transporte de mercadorias. Somando os impactos indiretos, a guerra altera todo o panorama económico global, desde a cadeia de abastecimento aos bolsos dos consumidores.

O barril de Brent chegou a superar os 119 dólares perto das 18h40 desta quarta-feira, 29 de abril. Esta é a referência europeia para os contratos futuros de petróleo bruto negociados na Europa. Registava uma subida diária de quase 7%, que colocava as negociações próximas do patamar mais alto desde o início da guerra, em 120 dólares.

É que os valores registaram fortes quedas com o anúncio de um cessar-fogo. Ainda assim, a fragilidade do mesmo, assim como o prolongamento do conflito (também a envolver outros países, como Israel e o Líbano) devolveu o sentimento negativo aos mercados internacionais. Falamos, por isso, de uma alta próxima de 30% em oito dias e de uma quase duplicação do preço desde o início do ano (quando rondava os 61 dólares).

Em simultâneo o West Texas Intermediate (mais conhecido pela sigla WTI) subia 6,60%, até aos 106,50 dólares.

Nas bolsas europeias, o sentimento continua profundamente negativo, em linha com aquele que se observa desde o início de março. Se olharmos ao índice agregado Euro Stoxx 600, que reúne as 600 empresas com maior exposição aos mercados financeiros europeus, contabiliza uma queda na ordem de 5% no período em causa.

Os índices de referência das principais bolsas europeias voltaram a apresentar descidas, ainda que inferiores a 1% (à exceção do FTSE 100, no Reino Unido, que caiu 1,18%). O próprio Euro Stoxx 600 seguiu a mesma linha, ao perder 0,6%, assim como, em Lisboa, o índice PSI.

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"Bloqueio" dos EUA põe petróleo a tocar novamente os 100 dólares por barril
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