Irão. 130 milhões de barris contornaram bloqueio dos EUA, mas petróleo aproxima-se de máximos da guerra

As negociações não avançam, as tensões crescem e o petróleo volta a disparar. O Irão continua a exportar em força e "é improvável" um "efeito significativo" na oferta a médio prazo, aponta a Vortexa.
Irão. 130 milhões de barris contornaram bloqueio dos EUA, mas petróleo aproxima-se de máximos da guerra
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O bloqueio dos EUA aos portos do Irão não deverá surtir efeito no sentido de reduzir as exportações do Irão a médio prazo. Nos primeiros dias desde que o mesmo foi decretado por Donald Trump, a maioria dos petroleiros iranianos que procuraram atravessar aquela zona, conseguiram fazê-lo.

O dito foi posto em prática a 12 de abril, um domingo. De acordo com o levantamento feito pela plataforma de dados Vortexa, que consta de um relatório divulgado na terça-feira, os EUA aprenderam 3 petroleiros não identificados que carregavam crude iraniano, entre os dias 13 e 21 de abril, segundo se soube até quarta-feira, dia 22.

Ora, os navios com ligação ao Irão encontram arriscam não passar no bloqueio feito pelos EUA, mas têm tido sucesso na maioria das tentativas. Entre 13 e 21 de abril, um total de 34 navios-cisterna com ligação ao Irão atravessaram o bloqueio dos EUA (uns entraram, outros saíram), no mesmo período. Para tal, desligaram o Sistema de Identificação Automática (AIS, na sigla em inglês).

Esta tecnologia permite divulgar, via rádio e em tempo real, a localização e velocidade das embarcações, pelo que é de elevada importância em termos de segurança. Por esse motivo, é obrigatório mediante a regulação da Organização Marítima Internacional (IMO). Regras que o Irão está contornar, com o propósito de manter o fluxo de exportações, já que a economia iraniana depende fortemente da indústria petrolífera.

Em simultâneo, continua de pé o bloqueio do Irão ao estreito de Ormuz, ou seja, numa zona mais interior do Golfo Pérsico. Este vigora desde 28 de fevereiro (dia em que EUA e Israel realizaram os primeiros ataques). Por ali, embarcações ligadas ao Irão e respetivos aliados podem passar. Porém, as restantes, caso não tenham acordo prévio, correm sérios riscos de serem impedidas de atravessar o estreito... mas a taxa de sucesso é alta.

É que a área de cobertura do bloqueio norte-americano ronda os 480 quilómetros, já que se estende entre a costa Este de Omã e fronteira entre o Irão e o Paquistão. Dito isto, funciona de forma dinâmica (os barcos da marinha norte-americana não estão sempre nos mesmos locais) e os petroleiros iranianos procuram explorar brechas.

Ora, todo o conjunto do tensões em torno do Golfo gerou um clima de incerteza que fica patente entre as empresas de transporte de produtos energéticos. Aqui não falamos apenas de petróleo, mas também de gás natural (20% do mercado global de ambos passa, em condições normais, pelo estreito de Ormuz), já que ambos atravessam as duas zonas em que, por esta altura, estão montados os bloqueios.

Em todo o caso, regista-se uma redução significativa da atividade iraniana na região. Nos 30 dias anteriores aos primeiros ataques, foram registadas 2 a 3 movimentações diárias de petroleiros ligados ao Irão. No período de 13 a 21 de abril, houve um recuo para 1 a 2, por dia. Os dados deixaram transparecer alguma redução na cadeia de distribuição da indústria petrolífera do Irão, mas não o suficiente para dar razão a Donald Trump quando este diz que os EUA têm "controlo total sobre o estreito de Ormuz", como se pode ler numa publicação do próprio feita esta quinta-feira na rede social Truth Social.

Desde que o presidente dos EUA deu conta do bloqueio, 130 milhões de barris estão em trânsito e já passaram a área de bloqueio dos EUA. Para se ter uma ideia, tal quantidade de petróleo é suficiente para corresponder a dois meses e meio de importações da China, que é o maior importador de petróleo em todo o mundo. Assim sendo, na perspetiva da Vortexa, "é improvável que o bloqueio dos EUA tenha qualquer efeito significativo no fornecimento de petróleo bruto iraniano ao mercado no médio prazo (2 a 3 meses)", pode ler-se no relatório.

Por outro lado, as movimentações totais aumentaram, no mesmo período. Entre os dias 13 e 21 de abril, registou-se uma média de 4,5 travessias, depois de serem registadas 4 ao dia, nos 30 dias anteriores.

Esta quinta-feira, os preços do barril de Brent e WTI voltaram a escalar. O impasse nas negociações entre os EUA e o Irão mantinha os investidores na expetativa. Ao mesmo tempo, as tensões aumentavam, com o ministro da Defesa de Israel a indicar que estava a aguardar indicação dos EUA para retomar o ataque ao Irão e "completar a eliminação da dinastia Khamenei", que lidera o Irão desde 1979.

Até às 23h42 verificava-se, no caso do Brent (referência europeia para as negociações de contratos futuros de petróleo), uma subida diária de 4,02%, até aos 106,01 dólares por barril. Em simultâneo, o homónimo americano adiantava-se 3,99% e rondava os 96,67 dólares por barril.

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