

Mais um dia agitado nos mercados financeiros. O cessar-fogo entre EUA, Israel e Irão provocou uma inversão no sentimento dos investidores, que se mostraram visivelmente animados, na sessão de quarta-feira.
Desde o início de março, a guerra no Médio Oriente fez disparar o petróleo e provocou uma queda generalizada nas bolsas de valores de todo o mundo. Os receios fizeram-se sentir até terça-feira (com curtas pausas, rapidamente corrigidas por mais pessimismo) e o dia seguinte já foi totalmente diferente.
Donald Trump, presidente dos EUA, tem sido o motor dos mercados internacionais, para o bem e para o mal - um cenário que se repetiu, mais uma vez. O próprio adiou por 15 dias o ultimato que havia imposto ao Irão e sinalizou a possibilidade de apaziguar tensões, pelo que a reação foi contrária a tudo o que vimos desde o início da guerra.
O petróleo subiu em flecha, fruto da destruição de instalações da indústria energética e bloqueio do estreito de Ormuz (por onde passa 20% do mercado mundial), à responsabilidade do Irão. A sessão de quarta-feira trouxe uma correção acentuada.
Em declarações ao DN, Ricardo Evangelista, especialista em mercados financeiros e CEO da ActivTrades Europe, assinala que um dos efeitos imediatos passa pelo tombo dos contratos futuros de petróleo.
O Brent (negociado na Europa) estava a cair 12,7%, até aos 95,35 dólares por barril, ao passo que o WTI (equivalente nos EUA) recuava 15,3%, para 95,69 dólares por barril. As quedas chegaram mais longe durante o dia, acima de 15% e 17%, respetivamente, naquela que foi a maior queda desde 2020, de acordo com Dow Jones Market Data.
Na base está “o otimismo relativamente a um cenário futuro”, com uma “perspetiva de normalização”, a respeito do conflito. Ainda assim, “existe espaço para mais perdas”, caso o otimismo se concretize “em mudanças concretas”, com mais sinais tranquilizadores.
Em simultâneo, o gás natural negociado na Europa (contratos futuros de TTF) perdia 15% e ficava-se pelos 45,3 euros/MWh, o valor mais baixo desde o primeiro impacto da guerra.
Uma das consequências diretas é o tombo de várias operadoras do setor petrolífero europeu, depois das fortes subidas ligadas aos saltos no petróleo. Destaque para a norueguesa Equinor, que caiu 12,1%. Somaram-se descidas que rondaram 5%. De resto, o sentimento positivo foi, quase na totalidade, transversal, entre países e setores da economia.
As bolsas de valores de todo o mundo recuperaram parte das perdas, em função do “renascimento do apetite pelo risco”. Começando pelos mercados asiáticos, registaram ganhos que começaram nos 2,5% e foram além de 5%, olhando aos principais índices. Destaque para o Japão (+5,4%) e Índia (+4%), entre as subidas mais acentuadas.
Na Europa, o Euro Stoxx 600 subiu 3,9% (reúne as 600 cotadas com maior exposição aos mercados). Entre as principais bolsas, a generalidade subiu perto de 4%.
A exceção à regra foi o Reino Unido, onde o FTSE 100 subiu 2,6%, depois de ter estado entre os que perderam menos com os efeitos da guerra. Por cá, o PSI registou ganhos ainda mais ligeiros, na ordem de 0,89%, após perdas pouco superiores a 1% no total do mês de março.
Olhando à bolsa de Nova Iorque, nos EUA, o sentimento era igualmente positivo. Entre os principais índices, registavam-se ganhos de 2,4% no S&P 500, 2,6% no Dow Jones e 2,9% no Nasdaq (tal como no Nasdaq 100), pela mesma hora.
Em simultâneo, os metais preciosos também recuperavam das perdas recentes. Nas últimas semanas, muitos investidores “venderam posições ganhadoras” em ouro, para responder a requisitos de margem, em função da queda das bolsas. Posto isto, o metal foi castigado de forma severa (caiu 13% em março) e, agora, valoriza com a situação que se mantém de “incerteza geopolítica e económica” e estava a subir 2%, ao ser negociado acima de 4.775 dólares por onça.
No mercado cambial, o dólar foi um dos grandes ganhadores da guerra, fruto de ser considerado um ativo de refúgio. Já na quarta-feira, o cenário foi muito diferente. A divisa caía face a outras que também estão entre mais importantes do mercado monetário (caso do euro, a libra esterlina, o iene japonês e yuan japonês). Na base estão os receios de aceleração da inflação, de tal forma que "a Fed já não vai cortar juros em 2026 como muito possivelmente vai subi-los", salientou.
As atenções continuam inevitavelmente centradas nos desenvolvimentos da guerra, a começar pelas novidades que cheguem do lado dos EUA, sobretudo por Donald Trump.