

O alvoroço que a guerra no Médio Oriente está a provocar nos mercados financeiros ganhou novos contornos quando Trump falar em negociações com o Irão. Muitos analistas apontam suspeitas de 'insider trading' e no Partido Democrata fala-se em "corrupção".
A semana passada iniciou com quedas nas bolsas e subidas agressivas no preço do petróleo, fruto de Donald Trump ameaçar, no sábado (dia 21 de março), destruir a infraestrutura energética do Irão, caso aquele país não permitisse a circulação de navios no estreito de Ormuz (prazo 48 horas).
Por ali passa cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás natural. A tensão entre os investidores foi evidente... até certo ponto, quando foi interrompido por declarações do próprio presidente dos EUA.
Na segunda-feira, dia 23 de março, Trump anunciou "conversas produtivas" com o Irão, sinalizando um possível caminho para a paz entre EUA, Israel e Irão. Assim, gerou-se um ânimo acentuado nos mercados e a resposta foi uma inversão imediata do sentimento. As bolsas dispararam para terreno positivo, corrigindo parte das perdas dos dias anteriores. Em simultâneo, o preço do barril caiu a pique, para o 'vermelho'.
Dias depois, o mundo ficou a saber de dados que podem resultar do recurso a informações secretas para rentabilizar investimentos. A 15 minutos deste último anúncio de Trump, realizado através da rede social Truth Social, um investidor (cujo nome é desconhecido) retirou cerca de 500 milhões de dólares investidos em contratos futuros de petróleo crude.
Em causa está dinheiro que havia rentabilizado, de forma expressiva, nas horas anteriores. Acabaria depois por ser retirado da exposição à volatilidade do mercado, escapando por aqueles 15 minutos à queda livre.
Ora, por um lado, esta movimentação pode ser honesta. A sorte ou instinto do investidor em questão poderá ter estado na origem de um ganho ajustado quase milimetricamente às movimentações das negociações. Por outro, podemos estar a falar de insider trading.
Este é o nome de uma prática que consiste em fazer uso de informações privilegiadas para capitalizar investimento nos mercados de capitais. É crime (punível com penas de prisão entre 20 e 25 anos e até cinco milhões de dólares em multa), mas é extremamente difícil provar.
Sabe-se que aconteceu, mas não se sabe quem foi. E, mesmo que se soubesse, seria preciso provar que a pessoa em questão teve acesso a, por exemplo, uma fuga de informação da Casa Branca, que lhe permitiria inferir sobre movimentações futuras nos mercados.
A Securities and Exchange Commission (SEC) é o regulador norte-americano para o efeito e está encarregue de investigar casos como este. Porém, mesmo que recorra a todos os meios e que faça todos os esforços, dificilmente vai conseguir uma base que sustente uma acusação concreta ao investidor, caso tal se justifique.
Certo é que analistas por todo o mundo falam na possibilidade de insider trading e a polémica chegou, naturalmente, à política norte-americana. Chris Murphy, senador do Partido Democrata foi mais longe, com uma acusação de "corrupção", através de uma publicação no X.
De resto, este tipo de suspeitas não são novidade durante a administração de Donald Trump.
Movimentações anteriores também geraram polémica
De acordo com a empresa de análises Bubblemaps, seis contas lucraram mais de um milhão de dólares na plataforma Polymarket no início da guerra. Na base esteve o timming de ataques ao Irão, no dia 28 de fevereiro.
Aquela aplicação e site permitem investir em todo o tipo de eventos que ocorrem ao redor do mundo. Horas antes de os EUA iniciarem os ataques em território iraniano, foram registadas apostas nesse sentido, relata a Bubblemaps.
Outro evento em foco foi a captura de Nicolás Maduro, que também despoletaram ganhos acentuados para determinados investidores. Ainda no ano passado, a 10 de outubro, Trump avançou com tarifas adicionais de 100% sobre importações da China, fazendo os mercados caírem a pique. Antes, houve movimentações atípicas no mercado das criptomoedas, que levantaram suspeitas no mesmo sentido.
É sabido que as suspeitas não são novas, mas parecem tornar-se mais recorrentes. Ainda que possa tratar-se de um fluxo significativo de instinto de sorte, levanta-se pelo menos a possibilidade de estarem em causa decisões eticamente lamentáveis e legalmente proibidas.