

Os mercados financeiros continuam instáveis, guiados pela tensão no Médio Oriente e a consequente pressão inflacionista, que faz disparar as yields da dívida soberana e ligam as sirenes dos bancos centrais.
Depois de a tensão entre os EUA e o Irão parecer cair, o que levou à descida do preço dos futuros de petróleo bruto, o conflito voltou a escalar. O barril de Brent (referência global) negoceia acima dos 100 dólares há mais de uma semana, ainda que se tenha registado algum alívio na quarta e quinta-feira. Os preços chegaram a superar os 109 dólares na semana passada e rondavam os 103,50 dólares por barril pelas 16h30 desta quinta-feira.
Na base está o adiamento das negociações de paz e a suspensão da operação de um oleoduto da Arábia Saudita, após ser atacado por drones. Este último pode resultar num corte de até 4% na oferta petrolífera global, com consequências inevitáveis para os preços praticados. O efeito na economia é evidente e vai muito além do preço dos combustíveis, afetando também os mercados financeiros, em toda a linha.
Em causa estão os valores associados aos contratos futuros de petróleo. Por serem tão altos, acabam por se repercutir nos combustíveis e nos custos de produção. Isto vai desaguar no encarecimento de produtos e serviços dos mais variados setores, gerando inflação. O resultado é o aumento da tensão a uma escala global, desde os bancos centrais às dívidas soberanas.
Este mês, o Banco Central Europeu (BCE) subiu os juros em 25 pontos base (p.b.), seguido pela mesma decisão da Reserva Federal (Fed), nos EUA. Significa isto que contrair um empréstimo se tornou mais caro. Acresce ainda que os analistas estão a prever pelo menos mais uma subida, em ambos os casos, até ao fim de 2026.
O objetivo passa por desacelerar a economia e travar a inflação, que continua muito acima da meta (homóloga) de 2%, definida pelas mesmas instituições. Em agosto, registaram-se incrementos de 3,2% na zona euro e 3,4% nos EUA (dados finais), que sustentam taxas de juro elevadas e maior exigência do lado dos investidores.
As yields da dívida soberana estão em patamares tão altos como não se viam há vários anos. É o caso, por exemplo, na maturidade a 10 anos da dívida norte-americana, com taxas tão altas como não se viam há 19 anos, ou dos máximos de 17 anos no caso da dívida da Alemanha a 10 anos. Com perspetivas de manutenção da inflação elevada a médio prazo, quem investe mostra-se mais exigente, no que diz respeito ao retorno.
Uma consequência mais imediata da subida dos juros na economia norte-americana foi a valorização do dólar face ao euro. A Fed apertou o cinto, mexendo com o sentimento dos investidores, o que resultou em alterações também ao nível do câmbio (Forex). Este é nada menos que o mercado financeiro mais agitado em todo o mundo (movimenta biliões de dólares diariamente), o que significa que está permanentemente sob o olhar atento de um grande número de investidores.
Em todo o caso, a postura hawkish da Fed contribuiu para a estabilização das pressões: a reação foi positiva nas bolsas europeias, que encerraram em alta (o índice Euro Stoxx 600 ganhou perto de 0,90%) e, em Wall Street, a queda que surgiu após a decisão foi seguida por uma recuperação significativa. Pelas 16h30 de quinta-feira, o S&P 500 ganhava perto de 1% na sessão, deixando o ganho semanal a rondar os 0,50%.
Além da geopolítica/petróleo, também a Inteligência Artificial (IA) é um dos principais vetores para o sentimento registado em torno dos mercados financeiros. Na segunda-feira, surgiu mais uma prova clara disto mesmo.
Sam Altman e Elon Musk (CEOs da OpenAI e xAI, respetivamente) juntaram-se a Dario Amodei (homólogo da Anthropic) nos alertas sobre os riscos associados à Inteligência Artificial. Os empresários pedem, assim, maior prudência e regulação pública, no que respeita ao investimento em IA, sob o risco de o ser humano perder o controlo sobre a tecnologia.
Recorde-se que, na semana passada, um investigador da Anthropic despediu-se, deixando sérios alertas. De acordo com Jacob Coxon, a própria e a rival OpenAI estão "a jogar com as nossas vidas", através de uma publicação na rede social X. "Nenhuma das [duas] empresas está a agir responsavelmente", escreveu.
A ideia de um eventual abrandamento foi sucedida por um sell-off das ações de empresas, com forte exposição à IA (tendência visível sobretudo nos fabricantes de chips semicondutores). A Nvidia (empresa mais valiosa do mundo) caiu 3,3% na sessão de segunda-feira, ao passo que a AMD e a Micron foram mais além, com descidas de 4% e 5% respetivamente.
A acalmia acabaria por regressar, de tal forma que as três dispararam desde os mínimos relativos observados na abertura de segunda-feira.
Certo é que a IA vai continuar sob o radar dos investidores. Somam-se as tensões em torno do Médio Oriente, de tal forma que o contexto volátil parece não ter fim à vista.