Navigator ruma ao futuro com apostas no papel tissue e nas cápsulas de café

Estratégia do grupo assenta na diversificação do negócio. Está a investir para continuar a crescer no tissue e prepara-se para ganhar espaço nas embalagens sustentáveis na esfera internacional.
A unidade de celulose moldada surgiu de um projeto de investigação do instituto Raiz.
A unidade de celulose moldada surgiu de um projeto de investigação do instituto Raiz. Foto: Paulo Spranger
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A The Navigator Company, líder europeia na produção de pasta branqueada de eucalipto e 7ª a nível mundial, está a redefinir o seu futuro. O grupo português, que é também a primeira fabricante da Europa e 6ª no mundo de papéis de impressão, desenhou uma estratégia de crescimento assente na diversificação das áreas de atuação. Para já, as apostas estão centradas no fabrico de papel tissue (produtos de higiene para cozinha e casa de banho) e em embalagens de uso único para o ramo alimentar. Mas há um vasto conjunto de projetos em investigação e desenvolvimento que visam criar soluções para setores tão díspares como a saúde, a energia e até a defesa. A base assenta em potenciar o uso económico do eucalipto e no lançamento de soluções sustentáveis, recicláveis e biodegradáveis.

As cápsulas de café serão o próximo produto de uso único sustentável a sair da fábrica de Cacia, Aveiro, da Navigator. A unidade de peças de celulose moldada a partir de fibra de eucalipto deverá começar a fabricar esta nova embalagem no último trimestre deste ano. Como explicou Luís Rodiles, diretor desta área de negócio, o grupo está prestes a fechar um contrato de fornecimento com um cliente fora da Europa. E tem mais em perspectiva. A eficácia da solução está a conquistar empresas da grande distribuição e fabricantes de café espalhados pela Europa, Estados Unidos e América Latina, disse.

Segundo Luís Rodiles, a Navigator apostou no desenvolvimento de uma solução compostável. “Três semanas depois da utilização da cápsula de café só restam uns resquícios da embalagem”, garantiu. O produto é uma resposta às necessidades das empresas que, até 2030, têm de utilizar embalagens compostáveis, recicláveis ou reutilizáveis para cumprir com a determinação legislativa da União Europeia de eliminação do plástico. É também uma oportunidade de negócio. Um pequeno cliente precisa de cerca de 200 milhões de cápsulas por ano e para um de maior dimensão a produção é da ordem de 500 milhões/ano, estima o responsável. A unidade de embalagens em celulose moldada está também a preparar-se para o fabrico de garrafas e frascos para enchimento de líquidos e molhos alimentares, mas que poderão servir também a indústria de cosmética.

Neste momento, esta fábrica está a produzir pratos de refeição, uma gama para acomodar pré-cozinhados e cuvetes. Os clientes da marca gKraft Bioshield são retalhistas, empresas de restauração e catering, assim como embaladores do setor agro-alimentar. O projeto já implicou um investimento de 14 milhões de euros, a que se irão somar mais 800 mil euros ainda este ano devido à aquisição de uma nova máquina para o fabrico de cápsulas de café. Segundo Luís Rodiles, a capacidade instalada é de 2000 toneladas de pasta por ano. Este é um negócio em desenvolvimento, sendo que a previsão de vendas em velocidade cruzeiro a atingir em 2027 é, neste momento, de cinco milhões de euros.

a área de negócio do papel tissue, aposta iniciada há uma década no âmbito do plano de crescimento e diversificação do grupo, é atualmente a segunda maior da Navigator. Em 2025, foi responsável por 25% do volume de negócios da companhia detida maioritariamente pela família Queiroz Pereira, que atingiu um total de 1970 milhões de euros. Como frisou Paulo Santos, diretor da fábrica de tissue de Cacia, “nos últimos dez anos, passou de um peso de 5% na faturação para 25%”, ou seja, para um valor de 493 milhões de euros. E a Navigator quer continuar a investir neste segmento, cujas vendas aumentaram 5% no ano passado, com 80% a serem garantidas nos mercados externos.

Há menos de duas semanas, anunciou um investimento de 115 milhões de euros na instalação de uma nova máquina de produção de papel tissue em Cacia, com capacidade anual de 70.000 toneladas. “Vamos duplicar a capacidade”, sublinhou Paulo Santos. Este projeto estará concluído no primeiro trimestre de 2028 e permitirá fornecer bobines de tissue para as fábricas do Reino Unido, adquiridas pela Navigator em 2024. Aliás, esta área de negócio tem crescido por aquisições em Portugal, Espanha, e mais recentemente, no Reino Unido. A Navigator produz para inúmeros clientes papel higiénico, papel de cozinha, guardanapos e, desde a integração da empresa britânica, também toalhitas. Tem ainda a sua marca própria - Amoos - em diversos pontos de venda.

Estes novos negócios da companhia portuguesa têm um ponto em comum: o Raiz - Instituto de Investigação da Floresta e do Papel, detido a 97% pela Navigator. Com 95 colaboradores (30% doutorados), o instituto esteve envolvido no desenvolvimento do papel tissue do grupo e, mais recentemente, no projeto de embalagens sustentáveis à base de celulose para substituição de plásticos. Está também a trabalhar em várias outras possíveis utilizações do eucalipto.

Segundo Carlos Pascoal Neto, diretor geral do Raiz, estão em curso projetos para a utilização de óleos essenciais e compostos bioativos em cosméticos e medicamentos; para a aplicação de nanocelulose bacteriana no fabrico de coletes à prova de bala; para o desenvolvimento de couro vegetal para indústrias como a automóvel e/ou o calçado; para a produção de biocombustíveis a partir de sobras da exploração florestal ou de subprodutos da produção industrial. O trabalho de investigação e inovação do Raiz vai desde a árvore (neste caso, o eucalipto), passando pela floresta e somando o produto. O instituto é já responsável por 53 patentes.

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