

Houve uma quebra nas renegociações de crédito para compra de habitação no primeiro semestre deste ano, mesmo com sinais de aumento da inflação decorrente da guerra do Médio Oriente e, em consequência, de uma possível revisão em alta das taxas de juro de referência pelo Banco Central Europeu. A instituição liderada por Christine Lagarde só em junho aumentou os juros, o que não sucedia desde setembro de 2023, mas no próximo mês já é esperada nova subida. No entretanto, as Euribor foram antecipando este cenário, com correções em alta, pesando cada vez mais nos orçamentos familiares de quem contratou um empréstimo. Ainda assim, a opção dos portugueses foi pela taxa mista - combina um período inicial de taxa fixa, que oferece previsibilidade e proteção face a eventuais oscilações do mercado, seguido de um período de taxa variável.
A UCI registou uma redução de 13% no número de pedidos de renegociação no primeiro semestre deste ano face ao período homólogo, avança ao DN Inês Silvestre, diretora de clientes da instituição financeira especializada na concessão de crédito habitação. Na intermediária de crédito Simplefy, o primeiro trimestre de 2026 fechou acima do período homólogo no que se refere às renegociações de crédito habitação, mas “a tendência inverteu-se com uma queda acentuada em maio”, revela o CEO, Rui Lopes.
Na Doutor Finanças, “as transferências de crédito habitação representaram cerca de 20% do total das operações” realizadas nos primeiros seis meses de 2026, um peso alinhado com o registado no mesmo período do ano anterior, afirma Nuno Leal, co-CEO da empresa. Na sua opinião, este comportamento “reflete um contexto de mercado menos pressionado do que aquele que se viveu durante o ciclo mais intenso de subida das taxas de juro, quando muitas famílias procuraram reduzir os encargos mensais através da renegociação ou transferência do crédito”.
Segundo o responsável da Simplefy, “o padrão mais comum nas renegociações é a passagem de taxa variável para taxa mista”. Na UCI, por exemplo, “63% dos pedidos de renegociação são de pessoas com empréstimos com taxa variável”. Na Doutor Finanças, “a taxa mista continua a ser a solução mais procurada pelos clientes”, diz Nuno Leal. Uma opção que “permite encontrar um equilíbrio entre segurança e competitividade no custo do financiamento”.
Nesta intermediária de crédito, cerca de 85% dos contratos celebrados são realizados com taxa mista. O mesmo sucede na Maxfinance, onde “a taxa mista continuou a ser a solução mais procurada na contratação de créditos habitação na rede. Em 2025, ultrapassou os 75% e a tendência mantém-se em 2026”. Já Inês Silvestre lembra que a maioria dos clientes da UCI “quer renegociar para reduzir os encargos com o seu crédito habitação, mas também há casos em que os pedidos visam a alteração para taxa fixa ou mista, como forma de proteção perante eventuais subidas da taxa de juro”. Na semana passada, o CEO do BPI aproveitou a apresentação dos resultados semestrais do banco para aconselhar a taxa fixa. Segundo João Pedro Oliveira e Costa, “a curto prazo parece mais cara, mas garante estabilidade para o futuro”.
O responsável pela Doutor Finanças sublinha que, nos últimos meses, há um fator que tem ganhado relevância nas renegociações: o fim dos períodos iniciais de taxa fixa ou taxa mista contratados nos últimos anos. “Em muitos casos, quando os clientes procuram negociar uma nova fixação da taxa junto do banco atual e não encontram condições competitivas, acabam por optar pela transferência do crédito para outra instituição que lhes ofereça uma solução mais ajustada às suas necessidades”, afirma.
No primeiro semestre deste ano, o montante médio de crédito aprovado na Doutor Finanças superou os 200 mil euros, o que representa um aumento de 18% face ao homólogo de 2025. Já ao nível da percentagem de financiamento, a média situou-se nos 74%, ligeiramente inferior ao registado no ano anterior. Na UCI, o montante médio foi de 288 mil euros, um crescimento de 29%. Nesse mesmo período o LTV (Loan-to-Value ou percentagem do empréstimo em relação ao valor da casa) médio foi de 56%, uma subida de 3% face ao mesmo período de 2025. Nos créditos concedidos aos jovens com garantia pública, o LTV médio foi 96%. Na rede Maxfinance, “o montante médio dos financiamentos aprovados já ultrapassa os 180 mil euros no primeiro semestre de 2026, acima dos 165 mil euros registados em 2025.”