As alianças caíram. A evidência fica.

Carolina Almeida Cruz

Cofundadora e CEO da C-MORE

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Durante seis anos, o sistema financeiro global habituou-se a medir a sua transição climática em compromissos: metas anunciadas, alianças assinadas, relatórios publicados. Esta semana, pela primeira vez desde 2019, essa medida deixou de subir. O novo relatório do Net Zero Finance Tracker, da Climate Policy Initiative, avalia 1.500 das maiores instituições financeiras do mundo, que gerem cerca de 315 biliões de dólares em ativos. A conclusão é clara: o progresso nas metas e na implementação estagnou.

Os números não deixam margem para dúvidas. Em 2025, a fatia de ativos detidos por instituições classificadas como “em progresso” ou acima nas metas climáticas desceu de 27% para 26%. Na implementação, desceu de 43% para 40%. A Net-Zero Banking Alliance deixou de existir em 2025. A Net Zero Asset Managers suspendeu o acompanhamento e reviu os seus compromissos. Nos Estados Unidos, os reguladores bancários retiraram os princípios de risco climático. Hoje, apenas 8% das instituições americanas publicam planos de transição, contra 20% a nível global.

Seria fácil ver aqui o fim de um ciclo. Prefiro ver outra coisa: o fim de uma ilusão, a de que bastava declarar.

O dado mais revelador é este. As empresas classificadas como alinhadas ou em alinhamento representam 35% do valor das carteiras, mas apenas 12,5% das emissões financiadas. O capital aprendeu a escolher rótulos. Ainda não aprendeu a mudar a economia real.

Hoje, apenas 8% das instituições americanas publicam planos de transição, contra 20% a nível global.

Ao mesmo tempo, as atividades limpas e de transição chegaram a 71% do financiamento direto a novos projetos de energia. O seu volume mais do que quadruplicou desde 2019, de 47 para 200 mil milhões de dólares. Mas o financiamento a novos projetos fósseis não recuou: cresceu 33% no mesmo período, de 62 para 82 mil milhões. 

Nas carteiras existentes, 46% da exposição energética avaliada está ligada a empresas que planeiam aumentar a produção fóssil, o dobro de 2019. A parte ligada a empresas que planeiam reduzi-la caiu de 30% para 9%.

O dinheiro vai nos dois sentidos porque decide com a informação que tem. E essa informação é, demasiadas vezes, a que as próprias empresas escolhem declarar, uma vez por ano, num questionário.

Um compromisso voluntário cai quando deixa de dar jeito. Uma aliança desfaz-se quando os membros saem. Uma evidência não desaparece assim. Uma evidência verificada mostra como uma empresa opera, onde compra, que fornecedores tem e que riscos acumula entre duas auditorias. Não depende do ciclo político de Washington nem da vontade de uma assembleia de associados. Existe, ou não existe.

Não devemos responder ao recuo americano com mais retórica. Também não devemos recuar às escondidas, a coberto da palavra “simplificação”.

É esta a lição para a Europa, e os dados confirmam-no. Segundo o relatório, a União Europeia e o Reino Unido lideram em políticas de finança sustentável e superam a mediana global. Nas assembleias gerais, o apoio ponderado dos grandes investidores a propostas climáticas caiu de 16% para 4% nos Estados Unidos. Na Europa Ocidental, caiu de 82% para 71%. Também cá há desgaste, mas a distância é enorme e não a podemos desperdiçar.

Não devemos responder ao recuo americano com mais retórica. Também não devemos recuar às escondidas, a coberto da palavra “simplificação”. Devemos responder com aquilo que o mercado não consegue ignorar: dados verificados e contínuos, que vão além do que cada empresa escolhe divulgar. O risco climático, como qualquer risco operacional, não está nos relatórios de sustentabilidade. Está nas cadeias de abastecimento, nas PME que abastecem os grandes grupos, nas decisões de compra, nos contratos e nos sinais que ninguém está a ler.

O próprio relatório aponta o caminho. As instituições com metas, planos de transição e divulgação mais sólidos obtêm melhores resultados, no financiamento e na economia real. A disciplina compensa. Falta transformá-la em prova.

A minha conclusão é simples. A transição não parou por falta de capital. Parou porque falta confiança na informação que orienta esse capital. Enquanto um banco, um investidor ou um comprador não conseguir distinguir, com provas, a empresa que está a fazer a transição da que apenas a anuncia, o dinheiro continuará a ir para os dois lados.

As alianças eram andaimes. Foram úteis enquanto o edifício se erguia, mas nunca foram o edifício. Agora que caíram, vê-se o que está construído e o que não está.

O próximo ciclo da finança sustentável não será o das promessas. Será o da prova. E quem a tiver primeiro não terá apenas razão. Terá vantagem.

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