Empresas investem mais na ética e na honestidade da liderança

Em 15 anos de estudos sobre a melhor empresa para se trabalhar, os trabalhadores foram subindo a fasquia daquilo que valorizam
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No ano 2000, oferecer fruta e pequeno-almoço aos trabalhadores era a “última moda”, mas os tempos evoluíram e as exigências aumentaram. As empresas sabem-no e hoje investem cada vez mais na “ética e na honestidade da liderança”. A conclusão é do Great Place to Work Institute Portugal, que há 15 anos estuda o que distingue as melhores empresas para se trabalhar no país.

Fundadora do instituto em Portugal, que foi também o primeiro na Europa, Sandrine Lage explica como o estudo é realizado e para que serve o ranking. Será apenas mais um ranking de empresas? “Não nos limitamos a avaliar as empresas ou o que os trabalhadores nos dizem sobre elas. Vamos, de facto, às empresas avaliar a qualidade das práticas que dizem ter”, assegura a responsável. “Muitas utilizam o relatório do Great Place to Work para criar planos de ação, por isso não se trata apenas de um ranking de empresas.”

Além de um questionário aos trabalhadores e aos responsáveis da empresa – que é semelhante ao que se realiza internacionalmente –, cada país possui indicadores próprios. No caso de Portugal, são analisadas questões sociais, que incluem a credibilidade da liderança, o respeito pelos trabalhadores (formação, acolhimento, qualidade das instalações, justiça salarial), a imparcialidade (não discriminação), o orgulho e a camaradagem que os trabalhadores têm na sua empresa. A média nacional para cada dimensão é, respetivamente, 83%, 80%, 79%, 88% e 83%, com uma perceção global a rondar os 88%.

“A ética e a honestidade da liderança na gestão do negócio [92% entre os vencedores] é um tópico bastante relevante deste grupo de empresas”, destaca o relatório deste ano. Sandrine Lage sublinha que “é uma das tendências mais recentes do investimento das empresas portuguesas. E compensa. As vencedoras deste ano, que já integravam a lista no ano passado, “registaram um crescimento de 22% a nível de receitas”.

Um indicador que teve uma melhoria tem que ver com a “intenção de continuidade na organização”, o que significará que “estamos no pós-crise e os trabalhadores sentem uma maior tranquilidade e confiança em relação a despedimentos”. Em contrapartida, na categoria “salários”, Sandrine Lage diz que “as notas continuam baixas, tal como a nível internacional, o que é relativamente normal porque ninguém vai dizer que ganha o que merece”.

Se não é pelos salários que os trabalhadores valorizam as empresas, no que é que estas se afirmam em 2016? Depois da “moda dos pequenos-almoços e da fruta nas empresas, a que se seguiram os serviços variados”, hoje as melhores empresas apostam em “inspirar” e “desenvolver”. Como?

Em “inspirar”, por exemplo, há empresas a pagar entre dois (73%) e sete dias de voluntariado (9%) dos seus colaboradores por ano. E para “desenvolver” as empresas vencedoras deste ano pagam, em média, 44 horas de formação anual por colaborador – 64% dos cursos não estão relacionados com a atividade desenvolvida.

Geralmente, as empresas que integram o ranking concedem benefícios aos trabalhadores acima do previsto na lei. Um tema que tem ganhado força é a conciliação de família e trabalho. Mas, apesar das boas práticas das empresas, há um problema de mentalidade que demora a ser ultrapassado. “As empresas do ranking deste ano oferecem mais tempo de licença de paternidade (32%) e maternidade (44%) do que o estipulado por lei. Mas em seis mil trabalhadores, sabe quantos usufruíram? Apenas cinco”, aponta Sandrine Lage. “Há questões culturais que precisamos de trabalhar.”

As 25 vencedoras de 2016 em Portugal são, por ordem de classificação: Cisco Systems, Diageo, EMC, SAS Institute Software, Biogen Idec, Grunenthal, Medtronic, Abbvie, Merck Sharp & Dohme, Volkswagen Financial Services, ROFF, Mind Source, Growin, Janssen-Cilag Farmacêutica, One Mars (Royal Canin/Mars), AstraZeneca, BMW, Daimler Financial Services, 3M, Cofidis, HUF Portuguesa, NOS, Boiron e Tintas Robbialac.

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