Inovação organizacional: contributo chave para o sucesso da estratégia

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Recentemente, o Prof. Augusto Mateus escreveu na revista da AEP de nome BOW-Business On the Way, de agosto, que "a economia é cada vez mais uma mistura de inovação e diferenciação. Nesse sentido, todas as indústrias serão culturais e criativas ou simplesmente não persistirão. A construção de sinergias entre o mundo empresarial e o mundo da cultura e da criatividade é decisiva para a afirmação de um novo paradigma da economia portuguesa".

As empresas portuguesas necessitam consequentemente de se preparar para adotarem um comportamento que as habilite a competir naquele contexto.

A agilidade e a adaptabilidade são essenciais para as empresas conseguirem otimizar as trocas de ideias com os parceiros e estar preparados para aproveitar as oportunidades que daí resultam.

Aumentar a inovação nas empresas não passa apenas por criar departamentos de investigação e desenvolvimento ou mesmo de inovação. Torna-se necessário aproveitar todo o talento da organização e estimular as relações com todos os parceiros para gerar continuamente ideias inovadoras e assegurar a sua concretização.

Uma mudança de comportamento é urgente para estimular o envolvimento e a criatividade, o que exige a criação de condições organizacionais favoráveis, que não são compatíveis com a estrutura hierárquico-funcional tradicional, nem com modelos de governação assentes mais na autoridade do que na liderança.

A produtividade terá também de aumentar para garantir condições de investimento nas áreas não estritamente produtivas, nomeadamente nas que proporcionam bem-estar às pessoas. Sem bem-estar não há condições favoráveis à produtividade.

A INOV.ORG - Associação para a inovação organizacional tem vindo a promover as práticas de workplace innovation que a EUWIN-European Workplace Innovation Network, patrocinada pela Comissão Europeia, desenvolveu e cujas orientações e práticas foram adotadas nas suas recomendações: "... Robust economic expansion in the EU cannot be sustained without higher total factor productivity growth ... Policies that help to develop human capital and facilitate workplace innovation are most effective in increasing productivity in the long term ..." EC 2019, sustainable growth for all: choices for the future of Social Europe (p.28).

A abordagem workplace innovation considera existirem cinco elementos fundamentais para potenciar a inovação organizacional numa empresa: postos de trabalho e equipas, dinamização da inovação e melhoria contínua pelas pessoas, lideranças partilhadas e voz do colaborador e os sistemas organizacionais. As orientações vão no sentido de criar funções enriquecidas que permitam trabalho com reduzida supervisão e em equipa. Promover interação, diálogo e exploração nos locais de trabalho para estimular a geração de ideias e sua concretização. A liderança cocriada através do diálogo com e entre os colaboradores, encorajando-os a tomar iniciativas e a contribuir para a tomada de decisão. Estruturas organizacionais ágeis e modelos de funcionamento colaborativo que apostam no trabalho flexível, aprendizagem e desenvolvimento e em sistemas de compensação associados aos resultados das equipas, em alinhamento com a estratégia. O quinto elemento acontece quando todos os outros quatro são adotados de modo significativo, traduzindo um estado organizacional de eleição.

A organização das empresas deverá assim assentar em equipas autónomas, com autonomia que permita um reforço do espírito de equipa em torno de objetivos seus, em equilíbrio com os seus recursos e responsabilidades. Cada equipa autónoma deverá assegurar a prestação de serviços de acordo com as suas competências organizacionais. As decisões operacionais deverão ser assumidas pelas equipas, dedicando-se as chefias ao coaching das pessoas e ao alinhamento estratégico no contexto da organização. Para tal, as equipas deverão conhecer a estratégia e como contribuir para a sua execução.

A equipa deve assim assumir um papel fundamental quer no contributo para a concretização dos resultados definidos na estratégia quer na garantia das condições adequadas à realização profissional das pessoas, ao seu envolvimento e ao seu bem-estar.

Um ecossistema organizacional adequado para implementar com sucesso a estratégia de inovação das empresas deverá proporcionar um conjunto de condições chave que contemple:

- clara comunicação da estratégia, de modo que todos na organização, a todos os níveis, a entendam de modo único e percebam como contribuir para a sua execução

- identificação das equipas autónomas que asseguram as competências organizacionais para prestar serviços aos stakeholders e às restantes equipas, constituindo uma arquitetura organizacional sistémica. Estas equipas devem contar com todos os recursos necessários, de decisão e operação, para a completa prestação de serviços, integrando colaboradores de diversos departamentos ou mesmo da administração.

- implementação de um sistema de controlo da estratégica assente no desdobramento dos objetivos, indicadores e metas estratégicas e táticas pelas equipas autónomas, até aos postos de trabalho. Este sistema deverá permitir acompanhar a execução da estratégia e avaliar se os resultados obtidos são os pretendidos. Além de dar uma justificação dos desvios, próprio do controlo de gestão, este sistema permitirá identificar onde falhou a estratégia, em termos de equipas e projetos.

- adoção de um modelo de gestão colaborativo, seguindo os princípios de workplace innovation, dinamizando a liderança partilhada nas equipas e as condições para o aumento da produtividade e do bem-estar das pessoas. Este modelo deverá assentar em tês dimensões organizacionais distintas mas cruzadas: Organograma, Arquitetura organizacional e Processos Operacionais.

- implementação de um sistema de compensação das pessoas com base na eficácia dos serviços das equipas e em alinhamento com a estratégia. As compensações devem ser uma partilha de benefícios e não um custo adicional para as empresas.

A adoção destas abordagens constitui uma oportunidade para as empresas portuguesas adaptarem o seu sistema de governação, de modo a proporcionar um maior envolvimento e compromisso dos colaboradores com comportamentos que potenciem a inovação organizacional, criando as melhores condições de sucesso para a inovação dos produtos e serviços, dos processos e do marketing.

Jorge Coelho, coordenador da Formação Aplicada em Sistema de Gestão da Inovação da Universidade Portucalense

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