Negociar o OE com palas nos olhos

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Subida do salário mínimo, agenda do trabalho digno, legislação laboral mais protetora dos trabalhadores. Têm sido estas as diretrizes do governo, num momento em que se abre caminho às habituais negociações para o Orçamento do Estado. Que António Costa, como tem feito desde que chegou ao governo, mantém limitadas à sua esquerda ignorando o resto do espetro político com assento parlamentar.

Se já era má essa falta de visão de um executivo minoritário - por essa teimosia preso a caprichos de quem defende que a dívida não é para ser paga, a moeda única é perniciosa e o défice não pode ser uma preocupação -, pior se torna num momento em que a economia tem de recuperar da pior crise de sempre.

Os números com que semanalmente os governantes embandeiram em arco são fraco consolo. Se o desemprego não disparou foi porque o Estado contratou mais do que nunca - e ainda pôs os funcionários públicos que pôde a engordar o bolo do "emprego privado". Se o crescimento do segundo trimestre se fixou nuns inauditos 15,5% foi porque vínhamos de uma base que traduzia a maior perda de valor que a economia alguma vez sofreu. E nem a bazuca, a disparar quase exclusivamente investimento público, nos salvará. É preciso uma reorientação rápida das políticas atuais.

Mas não parece ser de todo essa a prioridade de um governo mais preocupado com parangonas propagandísticas - mesmo que dobrando a realidade ou ignorando o enquadramento - e em manter os portugueses controlados à custa de subsídios do que em verdadeiramente olhar para Portugal e encontrar-lhe desígnio à altura.

O orçamento que aí vem devia estar a ser construído ouvindo com atenção as necessidades e queixas das empresas, que verdadeiramente garantem a riqueza do país, a mais-valia que conseguimos captar e a capacidade de competirmos com o mundo inteiro - e sobretudo uma Europa que, toda ela, estará também a aplicar fundos europeus ao seu desenvolvimento. Essencial seria que o Estado emagrecesse, garantisse condições para as empresas andarem para a frente e deixasse espaço para que se consiga trabalhar, de forma a descolarmos de vez da cauda da Europa.

Valorizar o trabalho e os salários é uma urgência, sim, mas deve ser feito com base no mérito, na recompensa dos melhores e através da redução da carga fiscal sobre a produtividade; não penalizando remunerações e criando com isso entraves ao justo reconhecimento do nosso trabalho.