Muitos perguntam - porque é que a Indústria deixou de estar na prioridade das políticas públicas e da agenda da nossa economia? Numa altura em que se cumprem 30 anos sobre o Relatório Porter - que apresentou uma proposta muito estruturada sobre o modelo competitivo para a nossa economia - importa voltar a ter uma discussão aberta e participada sobre o imperativo de fazer duma política industrial moderna a base sustentada para um novo contexto de crescimento para a nossa economia. Temos que voltar a falar da indústria e a renovar o nosso contrato de confiança com o futuro da nossa economia.
Falta em Portugal um sentido de entendimento coletivo de que a aposta nos fatores dinâmicos de competitividade, numa lógica territorialmente equilibrada e com opções estratégicas claramente assumidas é o único caminho possível para o futuro. Falta por isso em Portugal uma verdadeira rede integrada para a competitividade capaz de produzir efeitos sistémicos ao nível do funcionamento das organizações empresariais. O novo paradigma da economia portuguesa radica nesse sentido na capacidade de os resultados potenciados pela inovação e conhecimento serem capazes de induzir novas formas de integração social e territorial capazes de sustentar um equilíbrio global do sistema nacional.
Uma breve radiografia à matriz sectorial da economia portuguesa demonstra de forma inequívoca as alterações contextuais produzidas ao longo destes últimos trinta anos, com impactos diretos na própria organização da sociedade. Para além do desenvolvimento duma nova economia de serviços, de âmbito eminentemente local e com impacto reduzido em matéria de criação de valor sustentado, é de referir também o fenómeno de progressiva desindustrialização, entretanto acentuado nos anos mais recentes e o ténue desenvolvimento de novos clusters associados às dinâmicas da inovação e desenvolvimento. Trata-se duma evolução manifestamente assimétrica, com efeitos negativos em matéria de renovação dos indicadores ativos de capital estratégico.
A aposta num Novo Portugal Industrial deve dar prioridade a duas áreas de intervenção sistémica - profunda renovação organizativa e estrutural dos setores (sobretudo) industriais e aposta integrada na utilização da inovação como factor de alavancagem de criação de valor de mercado. A mobilização ativa dos atores económicos numa lógica de pacto estratégico operativo permanente era uma condição central no sucesso desta nova abordagem, sob pena de intervenções isoladas não conseguirem produzir de facto os efeitos desejados. Passado todo este tempo, a leitura dos resultados não é nada abonatória - excluindo os muito conhecidos e divulgados casos de reconversão interna e setorial conseguida com algum sucesso, na maior parte dos setores industriais clássicos não foi feita a renovação necessária e os fechos de empresas e perda de quota efetiva de alguns mercados é o resultado mais do que evidente.
Uma nova economia, capaz de garantir uma economia nova sustentável, terá que se basear numa lógica de focalização em prioridades claras. Assegurar que o IDE de Inovação é vital na atração de Competências que induzam uma renovação ativa estrutural do tecido económico nacional; mobilizar de forma efetiva os centros de competência para esta abordagem ativa no mercado global - mas fazê-lo tendo em atenção critérios de racionalidade estratégica definidos à partida, segundo opções globais de política pública, que tenham em devida atenção a necessidade de manter níveis coerentes de coesão social e territorial. Apostar num novo Portugal Industrial é dar à competitividade portuguesa um novo sentido de oportunidade.
Jaime Quesado é economista, gestor e especialista em Inovação e Competitividade