Alta relojoaria vale mais que o PIB do Luxemburgo

Estimativas apontam para uma valorização da indústria global até aos 85 mil milhões de euros, este ano. Watches and Wonders, em Genebra, acusou ausência do Médio Oriente
Alta relojoaria vale mais que o PIB do Luxemburgo
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A alta relojoaria e a relojoaria de luxo são, desde há séculos, fonte de muitas histórias e lendas. As que surgiram nas melhores manufaturas suíças e aquelas que se foram construindo ao longo de anos de escolhas de modelos icónicos por personalidades, em redor do mundo. Mas o que a História deverá escrever, a tinta permanente, é a valorização significativa que esta indústria tem registado ao longo dos últimos anos e, sobretudo, após a pandemia.

Entre 2020 e 2024, o setor da relojoaria de luxo cresceu aproximadamente 20% a 28% no total - o intervalo é grande, porque as contas são complicadas de fazer, uma vez que as várias fontes de informação diferem nos critérios que usam. Umas não consideram os mecanismos automáticos, outras não consideram os smartwatches premium e há também algumas diferenças metodológicas entre as consultoras que acompanham o setor. O que é certo, e menos difícil de calcular, é a tendência, que continua a ser de crescimento, com as estimativas a apontarem para uma valorização que poderá fazer a alta relojoaria e a relojoaria de luxo chegar a um valor global de 85 mil milhões de euros já este ano - mais do que vale o PIB do Luxemburgo (79,6 mil milhões, segundo dados do Banco Mundial).

A contribuir para este movimento sustentado de valorização esteve a recuperação do mercado de luxo da pós-pandemia, o aumento da procura por relógios em segunda mão (olá, Rolex!) e a expansão do mercado asiático.

Sinal disso foi a presença cada vez maior dos retalhistas e jornalistas asiáticos em grandes feiras de alta relojoaria, como é o caso da Watches and Wonders, em Genebra. O evento é uma evolução do Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), que foi criado em 1991. Em 2022, renasce com este novo nome e pela mão da Watches and Wonders Geneva Foundation (WWGF), fundação criada por iniciativa da Rolex, Richemont e Patek Philippe.

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Durante uma semana a Palexpo, em Genebra, é um desfile do que de melhor se faz no mundo da relojoaria
Durante uma semana a Palexpo, em Genebra, é um desfile do que de melhor se faz no mundo da relojoariaWWGF/KEYSTONE/GABRIEL MONNET

Menos Ásia, mais preocupação silenciosa

Mas regressemos à Palexpo, o enorme pavilhão de exposições que recebe o evento internacional todos os anos. Ali, há dois pisos, que se enchem de expositores decorados com pompa e circunstância para receberem não apenas profissionais, mas também o público aficionado da relojoaria e, claro, os embaixadores das marcas - personalidades como o piloto de F1 George Russell, o ator Patrick Dempsey ou Jannik Sinner desfilaram por Genebra perante uma multidão entusiasmada, não apenas por relógios.

Os jornalistas e influenciadores de relógios - outra categoria que surgiu após a pandemia - vindos da Ásia são sempre os que aparecem em maior número. Também são aqueles que mais notar se fazem, com os vários acessórios tecnológicos que trazem consigo para fazer vídeos, lives e dezenas de fotografias em cada expositor por onde passam.

O aumento de número de participantes asiáticos reflete bem a importância daquele mercado para o setor - os jornalistas e influencers viajam a convite da organização, portanto das marcas, que fazem questão de fazer presentes as geografias que contam mais para a atividade.

Este ano, a preocupação era latente, mas silenciosa. Durante os quatro dias em que a Watches and Wonders esteve fechada para profissionais - jornalistas, retalhistas e alguns convidados -, foi visível a redução das comitivas asiáticas e do Médio Oriente. O mais recente conflito que os EUA decidiram começar com o Irão deixou em terra muitos dos que deviam ter passado a semana em Genebra a ver as novidades.

Esta era uma semana particularmente esperada, até porque a Rolex - que continua a navegar vitoriosamente à frente das marcas que mais valorizam - celebra o 100.º aniversário do seu mítico Oyster. Isto significa que há um novo modelo no mercado, que deixou todos os amantes da alta relojoaria ansiosos por conhecer.

O Oyster Perpetual 41 apareceu em versão Rolesor amarelo, uma combinação de ligas representada aqui pela luneta e pela coroa em ouro amarelo, numa caixa e pulseira em aço Oystersteel. Os detalhes em ouro amarelo remetem a elementos de alguns dos primeiros relógios Oyster. A coroa mostra o número “100” em relevo e no mostrador ardósia, a referência “100 years” aparece às 6h00, onde geralmente se lê “Swiss Made”.

Claro que a Watches and Wonders não é apenas Rolex - como, aliás, o Dinheiro Vivo já deu conta -, mas o que é facto é que a marca tem mais de 30% de quota de mercado, e têm sido precisamente o Médio Oriente e a Ásia a garantirem a manutenção deste valor. Mas quando se pergunta se há preocupação devido ao conflito e a uma eventual quebra no consumo, a resposta de todas as marcas é resumida pela da diretora de Inovação e Produto da Vacheron Constantin: “Temos clientes muito fiéis.”

Às mesas que enchem os corredores da feira sentam-se retalhistas, importadores, exportadores em reuniões sucessivas. Cada representante quer levar para o seu mercado a marca mais relevante em cada momento, e os negócios vão-se fechando - adivinhamos - entre comida servida pela Escola de Hotelaria e copos de Veuve Clicquot, o champanhe oficial do evento, disponibilizado em praticamente todos os balcões. Porque, afinal, não se fala de luxo e alta relojoaria sem ser com um vinho à altura, acreditam as marcas.

Certo é que coleções como as apresentadas por casas de luxo como a Van Cleef & Arpels, Hermés ou a Chopard estão de olho precisamente nas geografias situadas mais a Oriente do Velho Continente: mantêm-se os brilhos, os relógios-jóia, as edições altamente exclusivas (podem ir de 1 a 20 modelos) e, no caso de marcas como a Bulgari, os relógios de ouro. Numa altura em que a Europa faz uma viragem para o uso de um luxo menos ostensivo, é de olho noutros clientes que as marcas pensaram o seu 2026, sem antecipar as movimentações da Casa Branca, que baralhariam todas as contas.

As novidades de algumas das casas continuam de olho nos mercados asiáticos e do médio oriente
As novidades de algumas das casas continuam de olho nos mercados asiáticos e do médio orienteVan Cleef & Arpels

Desporto, espaço e mar

Por outro lado, continuam a tentar inovar e surpreender, noutros segmentos, casas como a Tag Heuer ou a IWC. Fazem do desporto ou do espaço o seu grande objetivo e apresentam cada vez mais complicações que pretendem ser o mais útil e rigoroso possível para as várias atividades.

A IWC, este ano, puxou o Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, como que para servir de inspiração e, além de modelos dedicados à personagem, apresentou ainda o seu Pilot’s Venturer Vertical - um dos modelos que mais debate provocou nos corredores do evento, entre aqueles que o iam conhecer. O modelo mecânico foi construído de raiz, a pensar em voos espaciais tripulados e para garantir a medição do tempo em órbita. Está certificado para voar até à Haven-1, que deverá tornar-se a primeira estação espacial comercial do mundo.

Já casas como a Tag Hauer ou a Tudor aproveitaram para recordar as parcerias de longo prazo com desportistas, desde automobilistas a pilotos de embarcações, para reforçar ou reeditar modelos que lhes têm garantido a preferência dos consumidores e que, apesar de poderem não ter o impacto de outras insígnias, vão-lhes garantindo um lugar entre os melhores do mundo.

Mas entre os 65 expositores que, na semana entre 14 e 20 de abril, estiveram em Genebra, houve também lugar à surpresa, sobretudo junto de casas que vão fazendo o seu trabalho de formiga sem que haja grande expectativa em torno delas.

Uma delas é a Zenith, que apresentou o Chronomaster Sport Skeleton em aço com uma luneta em cerâmica preta. A parte mais divertida e fascinante foi o mostrador transparente, que permite ver o movimento El Primero 3600 SK, que vibra a 5Hz para uma precisão de 1/10 de segundos.

O que não deixa de ser curioso num evento desta envergadura - e que se calcula que tenha um impacto financeiro de, pelo menos, 200 milhões de euros somente na cidade de Genebra - é o facto de a vida virtual continuar a ser mais relevante do que o que acontece nos pavilhões.

Não raras vezes, os participantes das chamadas sessões de “Touch and Try”, onde é possível conhecer em detalhe as novidades e falar com representantes de cada marca, estavam ou a emitir em direto para os seus seguidores, ou simplesmente a percorrer as redes sociais dos expositores, ignorando a sua presença física. O momento de despertar dava-se, geralmente, quando um dos modelos lhes chegava às mãos, para a fotografia da praxe, mas não raras vezes foi possível ver como participantes que só falavam o inglês estavam em sessões noutros idiomas, com o único intuito de conseguir uma fotografia para as suas redes ou um saco com um brinde das marcas - outra coisa em que elas estão, finalmente, a cortar. Até porque, num setor que diz perseguir a sustentabilidade em todo o seu processo de criação e comercialização, a oferta de autocolantes, canetas, porta-chaves ou até jogos de dados parece um ligeiro contrassenso.

*A jornalista viajou a convite da Watches and Wonders

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