Turismo não quer ficar refém da Europa nem dos EUA e olha para a Ásia, mas aeroporto é obstáculo

Hoteleiros querem atrair mais turistas da China, do Japão e da Coreia do Sul para fazer face à quebra da procura dos principais mercados europeus. Falta de resposta da Portela é o principal desafio.
Turismo não quer ficar refém da Europa nem dos EUA e olha para a Ásia, mas aeroporto  é obstáculo
FOTO: Gerardo Santos
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Na matemática do turismo nacional, as contas são inequívocas e é aos visitantes estrangeiros que cabe o ónus do desempenho positivo do setor. Os sucessivos recordes que, nos últimos anos, têm impulsionado os principais indicadores da atividade firmam-se, sobretudo, à boleia dos principais mercados europeus e, desde o período pós-pandemia, também do crescimento expressivo dos turistas norte-americanos. Contudo, a atual conjuntura económica na Europa está a refrear a procura e os impactos já se começam a sentir nos hotéis do país.

“Neste momento já se nota um abrandamento que está a ter tendência para estabilizar e nalgumas regiões com ligeiros decréscimos em alguns mercados. O surgimento de novos hotéis e nova oferta, sem crescimento de turistas, poderá implicar ajustes na lei da oferta e da procura”, explica, ao DN, o CEO da Vila Galé, Gonçalo Rebelo de Almeida, à margem do 35º Congresso da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que termina hoje no Porto.

Também o CEO da United Investments Portugal (UIP), Carlos Leal, se mostra preocupado com “as dificuldades económicas sentidas em alguns mercados emissores relevantes, como a Alemanha ou o Reino Unido”, contexto que reforça a importância de o turismo nacional não poder “depender excessivamente de mercados específicos”.

O diretor-executivo da Hoti Hotéis acredita que, para já, o cenário não é preocupante, enquanto os preços se mantiverem em alta, e defende que é preciso ajustar a equação: menos turistas que geram mais receitas.

“Durante décadas o comentário corrente sobre o turismo nacional era a sua incapacidade de se valorizar. Hoje cuidamos de garantir um serviço e um produto com elevados standards de qualidade para justificar a valorização pelo preço”, justifica Miguel Proença.

Ainda assim, o responsável garante que não é possível que o turismo continue a depender exclusivamente da Europa e dos EUA, sendo necessário mudar o foco para o continente asiático. “Os países como a China, o Japão ou a Coreia do Sul trazem turistas de alto valor que viajam fora da época alta e têm uma estada média prolongada. Estamos a adaptar a nossa oferta e a treinar equipas para receber este segmento”, refere.

Numa leitura mais fina aos números, em 2025 os mercados externos foram responsáveis por 57 milhões de dormidas no país (+0,8%), ou seja, 69,4% do total. Já os residentes realizaram menos de metade deste valor, totalizando 25,1 milhões de dormidas (+5,4%), de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Olhando para os cinco principais mercados emissores, apenas os EUA (+4,9%) e a Alemanha (+1,2%) tiveram uma performance positiva.

O sinal de alerta surge do lado da Europa com o top das três nacionalidades com maior peso a perder expressão. Apesar de continuar a ocupar a primeira posição na emissão de turistas em Portugal, o Reino Unido recuou 1,5%. De Espanha e de França também chegaram menos turistas ao país no ano passado (-5,2% e -7%, respetivamente).

Face ao quadro, os hoteleiros ouvidos pelo DN não têm dúvidas de que, para manter a boa saúde do setor, é crucial diversificar a aposta na promoção junto de destinos com poder de compra e a Ásia é a resposta em uníssono. Os administradores da Stay Hotels admitem que o principal desafio para este ano será manter os níveis de atividade, num contexto de aumento significativo da oferta perante um crescimento da procura mais moderado.

A diminuição do número de hóspedes europeus, defendem, “é um sinal que merece atenção” reforçando a importância de olhar para outros mercados. “É fundamental continuar a diversificação de mercados, incluindo a captação de turistas de regiões como a Ásia. Este objetivo passa pelo desenvolvimento de novos produtos turísticos, em articulação com o Turismo de Portugal, de forma a tornar a oferta mais atrativa e diferenciada, como por exemplo, com conceitos inovadores como hotéis literários. O sucesso desta estratégia depende também do equilíbrio entre interior e litoral, do aumento da estadia média e da valorização dos fatores de atração únicos do país, elementos que são decisivos para consolidar Portugal como um destino competitivo e sustentável a nível internacional”, exemplificam Frederico Teixeira e Jorge Bastos.

Carlos Leal afina pelo mesmo diapasão e concorda que a diversificação dos mercados emissores é basilar para reduzir riscos e reforçar a resiliência do setor. “O mercado asiático já está presente em Portugal, mas poderia ter uma expressão significativamente maior se existissem ligações aéreas adequadas. A ausência de voos diretos implica viagens longas e com múltiplas escalas, o que limita a atratividade do destino. Trata-se de uma questão estrutural que não pode ser resolvida pela indústria hoteleira. Cabe ao Governo criar as condições necessárias, ao nível da conectividade aérea, para que estes mercados possam crescer de forma consistente”, aponta o CEO da UIP.

Além da conectividade aérea, para o responsável do segundo maior grupo hoteleiro do país as infraestruturas aeroportuárias são outro dos principais obstáculos à expansão dos mercados transatlânticos. “O crescimento do turismo a nível mundial está a acontecer nos mercados asiáticos, pois a Europa, por razões demográficas e económicas, está estagnada no crescimento enquanto mercado emissor. Os EUA, o Canadá e o Brasil têm ainda potencial de crescimento, mas seria igualmente importante reforço dos mercados asiáticos. Contudo, os constrangimentos à capacidade aeroportuária podem limitar esta opção”, diz Gonçalo Rebelo de Almeida.

Aeroporto é “um risco reputacional” para o país

Quando o tema da conversa é turismo, inevitavelmente todos os caminhos vão dar ao aeroporto de Lisboa. É o principal entrave ao desenvolvimento do setor apontado pelos empresários, com danos que extravasam o núcleo da atividade. “É um risco reputacional para o destino Portugal”, começa por traçar Miguel Proença.

Os atuais constrangimentos operacionais na Portela estão a ter um “impacto claro na perceção e na competitividade do país”, acrescenta Carlos Leal. “As longas esperas nos controlos aeroportuários penalizam o trabalho que tem vindo a ser feito, ao longo dos últimos anos, para posicionar Portugal como um destino seguro, atrativo e competitivo, tanto no turismo de lazer como no turismo de negócios”, nota o empresário.

Sem uma solução estrutural de curto prazo à vista e com Alcochete ainda longe de ser uma realidade, o problema, defende, irá agravar-se. “O resultado será uma pressão crescente sobre o mercado, com aumento da oferta e uma procura que dificilmente acompanhará ao mesmo ritmo, originando uma diluição do mercado e impacto direto na operação”, realça.

O CEO da UIP é perentório ao afirmar que Portugal reúne atualmente um vasto conjunto de fatores de atratividade no contexto europeu, destacando-se a estabilidade política, a segurança, a gastronomia, a qualidade da hotelaria e as infraestruturas rodoviárias, nomeadamente a rede de autoestradas. “O principal bloqueio ao crescimento não está na qualidade do destino, mas na capacidade de acesso ao país, em particular ao nível das ligações aéreas e da experiência de chegada, que deve estar alinhada com a qualidade da oferta existente”, assegura.

Para os administradores da Stay Hotels, as limitações do Humberto Delgado não afetam apenas o transporte aéreo, mas repercutem-se em toda a cadeia de valor do turismo. “Os constrangimentos aeroportuários podem influenciar o perfil da procura e a perceção de dificuldades de acesso aéreo pode ainda afetar a atratividade do destino, sobretudo para segmentos mais sensíveis. Para a hotelaria, traduz-se numa operação mais reativa, menos previsível e com maiores exigências de flexibilidade”, listam.

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