

Em época de vindima, a “Adega do Futuro” vai operar com 20 pessoas. Com capacidade para vinificar oito mil toneladas de uva, pode chegar às dez mil, assim faça sentido. Vai servir 800 viticultores da Região do Douro e representa um investimento total de 27 milhões de euros, cinco dos quais garantidos pelo Plano de Recuperação e Resiliência.
“É o nosso maior investimento, numa altura em que o setor está como está”, nota Jorge Cruz, diretor-geral da Granvinhos, em conversa com o Dinheiro Vivo. “Temos de continuar a investir, senão não saímos daqui”. Jorge é um gestor calmo, que mede as palavras, e que não é figura consensual na Região do Douro, nem no setor dos vinhos do Porto, atualmente a atravessar uma das mais significativas crises da sua história.
Recorde-se que os últimos números mostram que os viticultores da região terão perdido, nos último três anos, qualquer coisa como 41 milhões de euros. Isto porque a quebra no consumo e o excedente de produção obrigou a algumas medidas musculadas por forma a tentar combater uma crise que não dá sinais de abrandar. Na vindima de 2025, a Região Demarcada do Douro decidiu transformar 75 mil pipas de mosto em vinho do Porto. Foi o terceiro grande corte nos últimos três anos, depois das 90 mil pipas aprovadas em 2024, 104 mil em 2023 e 116 mil em 2022. Ora, uma vez que cada pipa é paga ao viticultor por um valor médio de mil euros, os produtores viram as suas quebras ultrapassar os 41 milhões de euros - só no ano passado perderam 15 milhões.
Foi o terceiro ano consecutivo de cortes no chamado benefício, a principal fonte de rendimento dos viticultores daquela região. O benefício é o quantitativo de mosto que pode ser destinado à produção de vinho do Porto em cada colheita, e foi um sistema instituído em 1937, quando a Casa do Douro iniciou o cadastro das propriedades para permitir uma distribuição justa e controlada dessa quota.
Mas quando falamos da nova adega da Granvinhos, não falamos apenas de vinho do Porto, uma vez que o grupo tem também apostado nos vinhos de mesa da região do Douro. Os dados mais recentes publicados em Diário da República revelam que a Região Demarcada do Douro enfrenta um desequilíbrio estrutural entre oferta e procura, com stocks que atingiram 4,4 milhões de hectolitros, cerca de 280% da produção anual. A contribuir para estes números estão, não apenas a redução do consumo, mas também a entrada massiva de uvas e vinho vindos de Espanha, a um preço muito mais baixo do que aquele que é praticado em Portugal. Para efeitos de comparação, as importações oriundas da vizinha Espanha representaram 43% do vinho produzido em Portugal em 2022, 38% em 2023 e 30% em 2024, sendo 68% a granel. No mesmo sentido, as alterações climáticas têm penalizado fortemente os viticultores, enquanto a inflação agrava significativamente os custos de produção e dificulta a comercialização, tanto nacional como internacionalmente.
Então, qual o racional por trás deste investimento de milhões de euros por parte da Granvinhos. “Temos de nos preparar para o futuro”, resume Jorge Dias. “E numa altura em que temos o desafio da falta de mão de obra, este é um passo muito importante”, salienta Elsa Couto, diretora de Marketing e Comunicação na Granvinhos, o grupo que agrega marcas como Dalva, Quinta de Ventozelo e Quinta de S. Salvador da Torre.
A Granvinhos, que integra o universo do grupo francês La Martiniquaise Bardinet, detido pela família Cayard, aproveita o músculo financeiro que vem de fora para conseguir reagir, quando os seus concorrentes aparentam menos fôlego. Sinal de que a aposta parece funcionar, é o facto de ter conseguido crescer em vendas, no ano passado - “foi um crescimento residual, cerca de 3%, mas não caímos”, nota Jorge -, quando a larga maioria dos operadores estão a cair. Aliás, o vinho do Porto tem estado a registar quebras na ordem dos dois dígitos nos últimos anos.
A conversa que Jorge Cruz e Elsa Couto tiveram com o Dinheiro Vivo aconteceu com vista para o rio Douro, no Cais de Gaia, e paredes meias com o espaço Porto Cruz. Ao balcão do Wine and the City, o novo espaço do grupo, os responsáveis da Granvinhos explicam também a ideia deste estabelecimento que já foi uma loja de vinhos, uma gelataria e que hoje é um lugar onde se pode beber um copo de vinho - do Porto ou de mesa - e provar algumas das propostas de José Guedes, o cozinheiro responsável também por outras ofertas gastronómicas do grupo, como o restaurante Casario (numa dança partilhada com Miguel Castro e Silva, cozinheiro que tem também acompanhado o desenvolvimento da oferta gastronómica da Grancruz desde há muitos anos).
“Neste espaço não fizemos um investimento muito grande, porque o espaço já era nosso. Claro que foi preciso redecorar e fazer algumas alterações, mas nada de estrutural”, explica Elsa Couto. “A ideia, aqui, é também apresentar opções diferentes para, por exemplo, o vinho do Porto”, diz, enquanto pede um Porto tónico, uma bebida que a Gran Cruz tem tentado promover, sobretudo entre os mais novos, para impulsionar o consumo.
“Numa altura em que as pessoas parecem disponíveis para experimentar bebidas deste género, aperitivas, que vêm de fora, o Porto tónico é uma bela opção”, continua Elsa, que, sem referir nenhuma marca concorrente, faz claramente referência às congéneres italianas e francesas que têm reforçado os painéis publicitários em Portugal.
Com os mais novos a quererem fugir a bebidas com muito álcool, Jorge Cruz tem defendido o Porto tónico como uma solução fresca, mais leve e divertida para trazer consumidores de novas gerações para um produto que, durante demasiadas décadas, pareceu apenas confinado a um público geracionalmente mais velho.
Aliás, marcas como a Kopke, por exemplo, têm também tentado abordagens mais diferenciadoras do vinho do Porto, nesta tentativa de penetrar em segmentos mais novos, como é o caso do recém-lançado Kopke on Ice. O produto convida a beber o vinho do Porto com três cubos de gelo e uma casca de citrino, num copo regular de vinho.
Investimento sustentável
Mas regressemos à Adega do Cedro, a tal que vai ser inaugurada no próximo dia 26 de junho, e que promete ser “o centro de vinificação mais moderno do país”, ao incorporar inovações em todas as fases do processo produtivo.
“A permanente política de reinvestimento, na melhoria dos processos produtivos e em aquisições estratégicas, reflete o nosso compromisso na sustentabilidade, do sector vitivinícola português, e na sua afirmação nos mercados internacionais”, continua Jorge. “Foi nesta perspetiva que apresentámos uma candidatura ao PRR, no âmbito das Agendas Mobilizadoras, e que concebemos e construímos a ‘Adega do Futuro’, com processos mais eficientes, digitais e ambientalmente responsáveis”, explica.
Neste projeto, a Granvinhos liderou o consórcio da Agenda Vine & Wine Portugal, que foi criado em 2022 no âmbito do PRR, com o objetivo de promover a transição energética e climática, e a inovação digital ao longo de toda a cadeia de valor da fileira da vinha e do vinho. Aderiram a esta agenda 46 entidades - 18 das quais do setor vitivinícola - de vários segmentos da economia, o que significa o movimento de um investimento global na ordem dos 86 milhões de euros.
“A Adega do Cedro desempenha uma dupla função de vinificação de vinhos do Porto e do Douro. Com uma capacidade instalada para processar 8000 toneladas de uvas, integra um conjunto de inovações tecnológicas que permitem maximizar o potencial qualitativo das uvas provenientes de cerca de 800 viticultores, distribuídos por oito concelhos da Região Demarcada do Douro, que nos confiam a sua produção”, nota ainda o diretor-geral do grupo.
Desenhada por Alexandre Brumester, esta nova adega junta-se assim à de Alijó, Avidagos e Tabuaço, e é a segunda que o grupo constrói de raiz, sendo aquela que vai necessitar de menos recursos humanos para operar na sua capacidade total.
Com cerca de 320 funcionários, a Granvinhos registou no ano passado um volume de negócios a rondar os 110 milhões de euros, sendo que mais de 75% desse valor resulta da exportação, refere ainda o responsável do grupo ao Dinheiro Vivo.
Neste novo edifício, em particular, vão destacar-se “os elevados níveis de automatização e integração dos processos, que aumentam a segurança e reduzem a dependência de mão de obra; a reutilização de 50% das águas residuais, contribuindo para uma significativa redução do consumo de água; uma central de energia fotovoltaica; e a utilização de equipamentos eficientes, que permitem reduzir até 40% as necessidades energéticas da adega”, explica a Granvinhos no comunicado de apresentação do projeto.