"Bolsa? Mercados emergentes estão à frente dos europeus"

A Europa está a ficar para trás por falta de investimento em IA. Análise é do CIO Equity da AllianzGI, que coloca mercados emergentes como China, Coreia e Taiwan na segunda posição, só atrás dos EUA.
Michael Heldmann é CIO Equity da Allianz Global Investors
Michael Heldmann é CIO Equity da Allianz Global InvestorsAllianzGI
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A AllianzGI vê riscos para os investidores na bolsa quando o portfólio apresenta exposição excessiva às "Sete Magníficas". Ao mesmo tempo, os mercados emergentes já são mais atrativos do que as bolsas europeias.

Quem o diz é Michael Heldmann, CIO para a área de mercados acionistas na Allianz Global Investors, uma das maiores gestoras de ativos em todo o mundo. O responsável esteve à conversa com o Dinheiro Vivo/DN, em Frankfurt, tendo destacado a importância de qualquer pessoa investir para criar um complemento de reforma e sublinhando a necessidade de estar atento aos mercados emergentes.

Determinados investidores arriscam ao concentrar uma parte significativa do respetivo portfólio na bolsa de Wall Street, considera Heldmann. De qualquer forma, neste capítulo importa, antes de mais, avaliar o perfil do investidor em causa. E há "dois tipos de clientes", explica:

"Um deles dá-nos instrução para superarmos um índice bolsista global, por exemplo", o que significa que existirá uma concentração significativa na bolsa dos EUA, em particular nas "Sete Magníficas", que são as mais valiosas (a saber: Apple, Microsoft, Alphabet (dona da Google), Amazon, Meta e Tesla). Dito isto, "toda a discussão muda porque o risco de concentração é aceite pelo cliente", ou seja, não é um entrave. "Depois, é uma questão de avaliarmos o risco relativo", assinala.

Outros pedem "uma abordagem mais diversificada aos investimentos (...) e consideramos que uma alocação mais equilibrada, que significa tipicamente reduzir os EUA e a tecnologia dos EUA, é o melhor posicionamento", assinala Michael Heldmann.

"Uma das convicções que tenho é a de que, se alguém gosta de tecnologia, é uma boa ideia comprar um pouco mais de tecnologia asiática [do que apenas tecnologia americana], porque mantém a exposição ao setor mas tens mais diversificação no portfólio", aconselha.

A estratégia pode incidir, a título de exemplo, sobre empresas como a TSMC ou a Samsung. Estas guiam, por norma, os índices de referência das bolsas de Taiwan e Coreia do Sul, respetivamente, pelo elevado peso que têm nos mesmos.

Ásia Oriental à frente da Europa

Na perspetiva do especialista, os mercados emergentes merecem integrar o portfólio dos investidores com perspetiva de retorno total (somatório entre a valorização da ação e dividendos distribuídos). Heldmann adianta que prefere casos como "China, Coreia do Sul e Taiwan, que estão à frente da Europa", em função dos investimentos feitos no âmbito da Inteligência Artificial (IA).

"Na Europa, a situação numa base marginal melhorou de há 3 anos para cá", recorda. Ainda assim, "é um grande problema a Europa não estar a participar na aposta e investimento em desenvolvimento de IA", sublinha.

É que, no continente europeu, não existe "qualquer modelo de linguagem competitivo, como encontras muitos nos EUA e na China", o que condiciona a inovação. Pelo contrário, "alguns" mercados emergentes ficam até "ao mesmo nível dos EUA", ainda que devam ter um peso inferior no portfólio dos investidores.

Dito isto, "há setores atrativos na Europa", entre os quais salienta o caso da defesa, pela valorização que se regista nos últimos anos, ligada ao maior investimento dos Estados. Ainda assim, num panorama geral, "há barreiras estruturais e os políticos têm de se mexer para as superar. Há indicações de que as coisas estão a acontecer, mas não à velocidade a que deveriam", alerta.

A 'guerra' da IA

Olhando aos EUA e à China, são os dois grandes players no que diz respeito à IA. Ora, por enquanto, a tecnologia chinesa "não está ao nível da que se faz nos EUA", mas a diferença está a diminuir.

"Ainda há uma vantagem dos EUA, mas está a tornar-se cada vez mais reduzida. A China está a aproximar-se", diz Michael Heldmann, que acompanha o setor com particular atenção. "Com o DeepSeek e atualizações de modelos, por exemplo, vimos que a China é muito capaz de construir tecnologia que pode tomar a liderança em determinadas áreas; estamos a ver isto na robótica, drones e carros elétricos", exemplifica.

Neste contexto, ergueu-se uma guerra comercial, travada entre os dois países. Donald Trump, presidente dos EUA, tem procurado tirar o tapete à economia chinesa mas, e se tiver sucesso? No imediato, "seria bom para o mercado", reitera o próprio, "pela concentração que existe nos EUA", já que as cotadas norte-americanas ganhariam tração.

Ainda assim, "a questão é se ele vai ter sucesso. É algo complicado porque se trata de uma área física, quando se fala de fabrico de robôs, por exemplo", atira.

Investir como forma de poupar

Os portugueses nunca tiveram tanto dinheiro parado nos bancos, a gerar poucos ou nenhuns rendimentos. Até fevereiro, eram 201 mil milhões de euros. Posto isto, o volume de investimentos dos portugueses é baixo, em termos relativos. Nascido na Alemanha, Heldmann explica que aquele país lida com uma situação semelhante.

O cenário constitui um problema para o futuro, num contexto em que os pensionistas terão um poder de compra cada vez mais baixo. "Investir nos mercados de capitais é uma ótima ideia para um complemento de reforma", salienta.

"Se analisarmos um horizonte de tempo razoável, é difícil encontrar um período de tempo onde teríamos perdido dinheiro", reforça. É que existem anos negativos ou muito atribulados, mas, quando olhado um período de 10 anos, por exemplo, não é comum acontecer.

"Isto é o passado, no futuro talvez seja diferente. Porém, quem investe no mercado de ações está a investir nos motores da economia, que estão a construir os produtos, a providenciar os serviços. Será razoável assumir que vais perder uma porção do dinheiro para sempre? É muito difícil imaginar, porque significaria que uma enorme parte da economia de um país desaparecia completamente", ou seja, um cenário altamente improvável.

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