"O valor das empresas está na camada de inteligência que colocam sobre as máquinas e não nas máquinas em si"

O diretor-geral da COTEC, Jorge Portugal, falou ao Dinheiro Vivo sobre o projeto que quer acelerar a valorização dos ativos intangíveis das empresas nacionais
Jorge Portugal é diretor-geral da COTEC Portugal desde 2016
Jorge Portugal é diretor-geral da COTEC Portugal desde 2016Leonardo Negrão
Publicado a

Arranca em setembro aquilo que Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC, adjetiva de “terceiro nível da arquitetura de confiança da COTEC”. O Intangible Value Lab - da Inovação ao Financiamento, é um programa de capacitação para pequenas e médias empresas (PME) que pretende responder “a uma falha estrutural da economia portuguesa: muitas empresas portuguesas inovam, desenvolvem conhecimento, tecnologia, dados, processos, mas não conseguem traduzir esses ativos em valor no mercado, nem demonstrá-lo de forma estruturada junto de bancos, investidores e parceiros”, explica Jorge Portugal numa conversa com o Dinheiro Vivo.

O objetivo é que as empresas consigam, depois, uma nova certificação - a IP Ready, que se junta assim à Inovadora e a Evolution, já reconhecidas pelo mercado. Espera-se, entretanto, que esta certificação altere a forma como empresas, bancos e reguladores avaliam o valor económico criado através de dados, software, processos, métodos de trabalho e conhecimento.

A iniciativa surge num momento em que os ativos intangíveis já representam 80% do crescimento económico, mas continuam praticamente invisíveis nos balanços das organizações. “Hoje, o valor das empresas está na camada de inteligência que colocam sobre as máquinas e não nas máquinas em si” continua Jorge Portugal. No entanto, o sistema financeiro e contabilístico ainda opera com modelos pensados para uma economia industrial, onde o tangível era o principal indicador de valor e de risco, realça. É por isso que Jorge Portugal acredita que esta nova iniciativa responde a três problemas centrais e urgentes: por um lado, o volume e valor dos ativos intangíveis que não estão registados nos balaços das empresas, porque não há ainda forma de o fazer que seja reconhecida por quem importa; depois, os bancos que continuam sem ter modelos para avaliar conhecimento, software ou dados, e baseiam os seus modelos de avaliação para concessão de financiamento apenas nos ativos tangíveis - que já não são os mais relevantes na maior parte das empresas. Pelo menos, não nas mais inovadoras e competitivas do mercado.

E, por último, mas não menos importante, o facto de essas mesmas organizações não conseguirem provar ao mercado o seu valor, porque aquilo que fazem não é ainda mensurável com critérios transversais e aceites por todos os agentes.

Com o IP Ready, a COTEC pretende replicar o impacto que a certificação Inovadora teve há uma década - quando passou a ser usada pelos bancos como referência para financiamento - agora aplicada ao universo dos ativos intangíveis.

Com isto vamos, espera Jorge Portugal, “conseguir criar uma linguagem comum entre empresas, bancos, contabilistas, ROC, entidades de propriedade intelectual e reguladores, que reduza a assimetria de informação que hoje impede o financiamento de inovação”.

“Vamos ter a capacidade de dizer: esta empresa combina bem os seus ativos tangíveis e intangíveis, protege-os, certifica-os e sabe transformá-los em valor económico”, continua. Até porque, “se eu vender uma empresa sem as pessoas, sem o conhecimento, e apenas com as máquinas, quanto é que ela vale?”, pergunta em jeito de provocação.

Jorge Portugal é diretor-geral da COTEC Portugal desde 2016
Os bastidores da C‑More: A máquina de IA que quantifica o risco invisível das empresas

Com esta linguagem comum a ligar todos os agentes da economia, vai ser possível identificar organizações que gerem com maturidade os seus ativos intangíveis, “tornando-os visíveis, mensuráveis, comparáveis e financiáveis”, resume. E, mais importante, competitivas.

Portugal está, sublinha ainda o responsável da COTEC, ainda muito atrás em termos de peso do financiamento em ativos intangíveis - que contribuem, atualmente, em cerca de 80% para o crescimento das empresas. “É uma transformação que temos vindo a fazer nos últimos 30 anos”, continua. “Há 30 anos, o peso dos intangíveis no crescimento era de cerca de 30%. Atualmente é de 80%, enquanto o investimento em ativos intangíveis é de apenas 29%, em Portugal. Isto são dados dos bancos!”, esclarece Jorge Portugal.

Em Espanha, o investimento em ativos intangíveis já ronda os 36% e em Itália é ainda um pouco superior, revela ainda o responsável. Os dados são importantes, salienta, para se perceber a desproporção que existe entre aquilo que está a fazer realmente uma empresa crescer e aquilo que é contabilizado como mais-valia dentro dessa mesma empresa. “Os italianos já perceberam que têm de investir em algoritmos, em dados, em processos, em transformação organizacional, portanto, já estão a ganhar escala”, avisa Jorge Portugal.

“A questão aqui não é investir mais. É reconfigurar o investimento”, salienta.

O Intelligent Value Lab (IVL), que foi totalmente desenvolvido pela COTEC e que em setembro terá a sua primeira edição vai permitir que, através de 12 sessões “imersivas, que utilizarão casos práticos a convidarão as empresas a perceber se já estão ou não a valorizar os seus ativos intangíveis - porque muitas até podem estar a fazê-lo sem dar conta”, as organizações estejam mais capacitadas e cientes do que as espera nestes novos tempos. E podem, posteriormente, tentar a certificação dada também pela COTEC, e que espera abrir a porta a esta nova linguagem do mundo empresarial.

O objetivo é que as empresas, no final o programa, saibam como podem valorizar e proteger os seus ativos intangíveis, tenham conhecimentos sobre modelos de avaliação de risco, trabalhem a sua relação com os bancos tendo em conta esta nova realidade e tomem decisões baseadas numa maior integração de dados e processos. O programa pretende capacitar entre 300 e 400 empresas para a certificação no primeiro ano, adianta ainda Jorge Portugal.

Com a IA a tornar-se, também, uma ferramenta cada vez mais utilizada, e a impactar as empresas desde a criação até à gestão, é outro ponto que tem de ser considerado por todos os agentes da economia, sem medos e com seriedade. “O que é que vai mudar no processo de decisão da empresa, com a adoção da IA? Isso tem de lá estar explícito. Nos planos da empresa e também nos eventuais pedidos de financiamento”, nota.

Jorge Portugal falou com o Dinheiro Vivo na sede da COTEC, em Lisboa
Jorge Portugal falou com o Dinheiro Vivo na sede da COTEC, em LisboaLeonardo Negrão

Outra questão de particular relevância é a da propriedade intelectual - outro ativo intangível muito valioso - que continua a ser pouco cuidado em Portugal. O país continua abaixo da média europeia em I&D, intensidade de registos de propriedade intelectual e capital de risco, e Jorge Portugal acredita que é também por aqui que passa a diminuição desta diferença entre Portugal e os seus pares europeus. Ao garanti-la, aumenta-se automaticamente a competitividade nas empresas nacionais, e o contributo para a economia toma forma, sublinha o responsável, que aproveita para deixar um apelo aos governantes. “Do ponto de vista de incentivos ao investimento, cada vez mais vamos ter de olhar para esta reconfiguração do investimento em ativos intangíveis e tangíveis, e só ela é que vai aumentar a produtividade da economia. Se continuarmos a olhar para as regras dos incentivos ao investimento considerando apenas a criação de postos de trabalho ou aumento da produção, não vamos lá, começa por pedir. Ou seja, “a política pública também tem de reconfigurar os seus objetivos”.

É fundamental, continua, que “os organismos públicos compreendam o papel fundamental do software, dos métodos, da capacitação profissional das pessoas, da tecnologia, das marcas, dos direitos de propriedade intelectual na reconfiguração da competitividade. Isso é absolutamente fundamental”, conclui.

“Porque senão vamos estar a dar incentivos para continuar a investir na economia do século passado e não na economia do século XXI”, resume o responsável.

Jorge Portugal é diretor-geral da COTEC Portugal desde 2016
Aceleradora Open Cities traz a Portugal onze projetos de longas-metragens
Jorge Portugal é diretor-geral da COTEC Portugal desde 2016
Portugal é o “país do Fold”. 55 mil portugueses optaram por um Samsung com forte recurso ao crédito
Diário de Notícias
www.dn.pt