

Termina esta quarta-feira, 29 de julho, o prazo para entrega de propostas vinculativas para a compra de 49,9% da TAP (fatia que inclui os 5% dirigidos preferencialmente aos trabalhadores). Depois de mais de uma década de privatização e renacionalizações, o futuro da TAP parece agora estar a encerrar o capítulo em que começa a sair, definitivamente, das mãos do Estado. O Executivo quer o dossiê fechado até setembro, o que vai colocar alguma pressão sobre a Parpública, responsável por analisar as propostas e dar resposta às mesmas. Na corrida estão dois gigantes europeus da aviação: o grupo Lufthansa (Alemanha) e o grupo Air France/KLM (França/Países Baixos).
As várias avaliações que foram saindo até agora apontam para que a companhia aérea tenha atualmente um valor de mercado entre 1,4 mil milhões e dois mil milhões de euros, o que poderá significar um encaixe, para o Executivo, na ordem dos 700 mil a mil milhões de euros. Isto porque as avaliações estão a considerar um múltiplo de quatro vezes o EBITDA - resultados antes de impostos, gastos financeiros líquidos, amortizações e depreciações, na sigla em inglês - da companhia. Tem sido este o múltiplo usado na média do setor, inclusivamente na recente compra da ITA pela Lufthansa, que pode ser usada como operação comparável.
A TAP está, defendem os especialistas, ainda assim, numa melhor situação financeira do que a companhia italiana, uma vez que já terminou o seu processo de restruturação, para o qual contribuíram os 3,2 mil milhões de euros que os contribuintes portugueses injetaram na companhia ao longo dos últimos anos.
Mas, dizem os responsáveis, o preço não é tudo. Recorde-se que entre as prioridades do Governo para esta venda estão o cumprimento de alguns critérios como a manutenção do hub de Lisboa, garantindo que a capital portuguesa não perde rotas chave nem é remetida para uma posição secundária dentro do novo grupo; a garantia de que a TAP preserva a sua identidade e operação, e também uma série de compromissos de investimento contínuo na modernização da empresa e estabilidade dos postos de trabalho atualmente existentes. A TAP tem hoje entre 7.500 e 8.000 trabalhadores.
Se tudo correr conforme o previsto, a decisão final será tomada em Conselho de Ministros entre o fim de agosto e o início de setembro, momento em que o Governo anunciará o vencedor e que marcará o princípio do fim de um processo que tem atravessado anos e Governos vários.
Isto porque, após o acordo de venda, é preciso passar no crivo das autoridades europeia e da concorrência. Num mercado comunitário cada vez mais rigoroso quanto à consolidação aérea e ao controlo de slots em aeroportos congestionados como o de Lisboa, prevê-se que Bruxelas seja particularmente minuciosa. Por esse motivo, e embora a transição operacional e eventuais modelos de cogestão possam arrancar já durante próximos meses, a conclusão financeira e jurídica do negócio poderá arrastar-se ainda durante largos meses.
Dois gigantes à conquista da América do Sul
Na corrida à compra da TAP estão, nesta altura, dois gigantes da aviação: o consórcio franco-neerlandês Air France/KLM e a alemã Lufthansa. Ambos de olho na liderança indiscutível que a TAP tem nas ligações entre a Europa e o Brasil, aliada à posição privilegiada do hub de Lisboa como porta de entrada para o continente africano. A TAP é uma das duas companhias escolhidas pelo Estado português para, ao abrigo de um acordo com o Brasil, ter a exclusividade das rotas ponto a ponto entre Lisboa e os aeroportos brasileiros (o Brasil escolhe outras duas).
Um posicionamento que, atualmente, poderá ser particularmente interessante para o consórcio Air France/KLM, tendo em conta que a Lufthansa ficou recentemente com uma participação maioritária da italiana ITA Airways, que já detém algumas rotas diretas para o Brasil, nomeadamente entre Roma e São Paulo.
Recentemente, em conversa com o DN/Dinheiro Vivo, durante uma conferência de imprensa, o administrador financeiro da Air France/KLM, Steven Zaat, referiu que a TAP poderia ter um “lugar central na organização do grupo”, caso o consórcio saia vencedor do processo de privatização em curso. Por sua vez, o presidente executivo (CEO) da Air France-KLM, Benjamin Smith, salientou, na mesma ocasião, que “a rede que a TAP tem atualmente é muito complementar” à do grupo devido às ligações à América do Sul: “Ter um ponto de entrada na América Latina a partir da Península Ibérica estrategicamente seria ótimo para nós”.
A Air France-KLM apresenta esta manhã os resultados relativos ao primeiro semestre de ano.
Também o CEO da Lufthansa falou recentemente sobre como a TAP poderia ser estratégica para o grupo alemão. Na apresentação da nova fábrica de reparação de peças da Lufthansa Technik em Santa Maria da Feira, em junho passado, Carsten Spohr, garantiu que o interesse da companhia aérea alemã na TAP é “muito forte”, e que a vê o “parceiro ideal” para uma expansão no sudoeste da Europa e para a ligação à América do Sul, especialmente ao Brasil.
“Acreditamos que aquilo que construímos aqui em Portugal, aquilo que estamos a inaugurar hoje - postos de trabalho, oportunidades de formação e, claro, também o programa social - seria maravilhosamente complementado pela nossa cooperação com a TAP”, afirmou Spohr, que vê na companhia “a parceira certa”, até para expandir para outros mercados. “É óbvio que Portugal é a porta de entrada para o Brasil. Está geograficamente numa localização perfeita para a execução dos nossos planos de continuar a desenvolver as nossas rotas para a América Latina”, explicou o CEO, ressalvando, porém, que não querem “desviar valor ou passageiros para Frankfurt ou para a Alemanha, mas sim o contrário”. Assim que os envelopes das propostas forem selados e entregues, nesta quarta-feira, a Parpública pode começar os trabalhos: tem um mês para analisar as ofertas, por forma a que a rentrée política já comece com uma decisão do Governo sobre quem será o novo dono da companhia de bandeira nacional.