Em Outubro de 2016, o California Market Center em Los Angeles encheu-se para ouvir o CEO de uma empresa de compra e venda de roupas usadas. "Estamos a re-imaginar a indústria da moda", afirmou orgulhosamente Manish Chandra, CEO da Poshmark. "Criámos uma nova forma de retalho de moda."
É claro que a Poshmark não inventou a ideia de comprar e vender roupa em segunda mão, mas inovou na forma de o fazer. A empresa foi fundada em 2011, no rescaldo da grande recessão de 2008, e criou uma aplicação móvel que permite às pessoas venderem e comprarem a sua roupa usada de forma simples e directa. A Poshmark facilita o processo e dá garantias, recebendo em troca uma percentagem por cada venda. Ali é possível encontrar, por exemplo, uma saia Marc Jacobs por 45 dólares, uma gravata Gucci por 135 ou umas calças de ganga Ralph Lauren por 30.
Em Janeiro deste ano, a empresa entrou em bolsa com uma avaliação de mais de 3 mil milhões de dólares e encerrou a primeira sessão a valorizar 140%. O CEO, agora multimilionário, foi um dos convidados do festival "O Futuro de Tudo", organizado na semana passada pelo Wall Street Journal.
Concorrendo com outras apps similares, como a RealReal e a ThredUp, a história de sucesso da Poshmark não é isolada. Espelha uma tendência de mercado cada vez mais forte, que tem na génese a mistura de vários factores. Por um lado, a ideia de aceder a itens de moda com descontos generosos, especialmente nas gerações cuja vida adulta tem sido marcada por crises sucessivas. Por outro, a consciencialização do desperdício e custos ambientais da moda rápida.
Há ainda a influência de movimentos minimalistas, a ideia de se desfazer da tralha em casa em vez de acumular coisas durante anos no armário. E até a aceleração do comércio electrónico por causa da pandemia.
O negócio da moda em segunda mão tem crescido tanto que são várias as startups a entrarem no mercado, propondo formatos diferentes. A Vinted, o primeiro unicórnio da Lituânia, levantou 250 milhões de euros na semana passada e diz que é agora o maior mercado de roupa usada consumidor-a-consumidor na Europa.
A Reflaunt, que se foca apenas em marcas de luxo, levantou 2,7 milhões em Fevereiro, com o CEO da Balenciaga, Cédric Charbit, entre os investidores iniciais. A Vestiaire Collective, que cresceu mais de 100% em 2020, tornou-se um unicórnio em Março, depois de uma ronda de financiamento de 178 milhões de euros liderada pelo grupo francês de moda Kering. E a Thrilling, sediada em Los Angeles e focada em moda vintage, fechou uma Série A de 8,5 milhões de dólares na semana passada.
Este crescimento e a evolução do comportamento dos consumidores colocam pressão sobre as marcas de luxo, que nunca quiseram ser acessíveis nem associadas a descontos. As casas de moda de luxo sempre fugiram de revendas, segunda mão e saldos, para manter uma percepção de exclusividade e controlo sobre a distribuição. É isso que parece estar a mudar.
Não só as novas gerações têm uma visão diferente do luxo como há benefícios para as marcas em investirem nestas apps de moda em segunda mão. Afinal, são como caixas de tesouro cheias de dados sobre os comportamentos dos consumidores, o que procuram e que marcas preferem. Há também um incentivo porque a revenda desencoraja a contrafacção, um problema crónico contra o qual as marcas de luxo têm de lutar.
É certo que esta mudança não é universal. Enquanto a Gucci, Balenciaga ou Alexander McQueen estão dispostas a apostar na "moda circular", marcas como a Chanel ou Hermès não querem sequer ouvir falar de ter itens disponíveis a preços mais baixos em apps de telemóvel.
A questão é se vão poder resistir. À medida que este segmento cresce, o relacionamento entre os novos consumidores e as marcas vai seguir outros caminhos. Há uma oportunidade real de negócio para todas as partes envolvidas - e um benefício evidente de sustentabilidade numa altura crítica para a luta contra a crise climática.